A Nova História e a historiografia Rankeana*

Publicado: 22 de outubro de 2010 por Leandro Possadagua em Uncategorized

Leandro Possadagua**

É muito comum ouvir nas rodas de conversas, entre amigos de cursos de história e áreas afins, a expressão: A Revolução Francesa da Historiografia! Mas o que, de fato, foi esta revolução historiográfica? Foi mesmo uma revolução?

A priori, a Revista Anais da História Econômica e Social foi fundada oficialmente por Marc Bloch e Lucien Febvre na França em 1929. Nesse momento nos Estados Unidos da América o crack da bolsa de valores fazia milhões de pessoas se desesperarem ante ao caos econômico sofrido e a Europa provava um turbilhão no domínio da historiografia, o qual se tornaria o principal acontecimento nesta área.

Fez ruir o modelo tradicional de historiografia com tendências positivistas que predominavam desde o século XIX. O Positivismo pregava uma científização do pensamento e do estudo humano; buscando a obtenção de resultados claros, objetivos e completamente corretos. Os pensadores e historiadores que eram seguidores desse movimento acreditavam no ideal de neutralidade, isto é, na separação entre o pesquisador e sua obra. Positivismo reduz o papel do homem enquanto ser pensante, crítico, fazendo deste mero coletor de informações e fatos presentes nos documentos, que/os quais seriam capazes de se fazer entender por si só (CARDOSO, 1997, p.36).

Este modelo de historiografia é denominada comumente como historiografia rankeana, criada pelo célebre historiador alemão Leopold Von Ranke. Embora o seu nome esteja costumeiramente ligado a severas criticas quanto ao seu método, estas devem ser consideradas com certa cautela e imparcialidade, pois o próprio autor estava menos limitado do que seus seguidores (BURKE, 1992, p. 10). Uma das maiores contribuições deste modelo historiográfico foi sua observação a cerca das limitações das fontes narrativas e da necessidade de se fazer uma crítica dos documentos de arquivos.

Esta historiografia tradicional, no século XIX e inicio do século XX, era tida como uma espécie de história oficial que priorizava os grandes personagens. Sua dimensão política era vista a partir, ou através, do Estado, uma historiografia que se dedicava às grandes batalhas, guerras e possíveis negociações envolvendo eminentes personagens de diferentes Estados. Neste modelo de história predominam as fontes consideradas oficiais, ou seja, aqueles documentos que foram produzidos e que podem ter sua autenticidade comprovada. Assim que um documento fosse considerado verdadeiro e oficial poderia ser usado como fonte pelo pesquisador, fora isto, não havia fontes que pudessem produzir dados relevantes à historiografia da época.

A Nova História fez uma grande mudança no que diz respeito a concepção de fonte, passando a não utilizar apenas as fontes consideradas oficiais, já que também estas poderiam ser manipuladas. A partir de então as fontes podem ter um leque maior de abrangência, podem ser usadas não só os documentos oficiais, mas também aqueles que antes não eram considerados documentos. Nascia a história vista de baixo! Nela, um olhar mais atento sobre as fontes poderia mostrar a realidade dos soldados e não apenas dos generais; as dificuldades dos enfermeiros e não apenas a vida elegante do médico europeu; seria visto pela primeira vez a história dos colonizados e não apenas dos colonizadores. Sim… Os simples cidadãos também tinham suas histórias para contar, e, sobretudo, suas versões dos fatos.

Com novas possibilidades e novas fontes, o pesquisador passou a ter uma visão mais ampla do tema trabalhado (BERTUCI, 2009, p. 123). A historiografia mostrou possibilidades até então desconhecidas, ou até mesmo, ignoradas. Demonstrando o quanto a história é dinâmica, questionando as fontes, e para além disso, problematizando fatos até então considerados como verdades absolutas. Ao pesquisador cabe a tarefa de não contentar-se com possíveis verdades irrevogáveis, mostrar-se aberto às novas teorias que vêm surgindo; já ao profissional docente, fazer uso destas novas teorias, possibilitando ao educando uma maior problematizaçao da história, o fazendo parte dela, e, principalmente, não se deixando dogmatizar por uma historiografia linear e factual.

*Artigo escrito como avaliação da Disciplina História Contemporânea I do curso de história da Universidade Federal de São Paulo/UNIFESP, sob a orientação da Profª Dra. Ana Nemi (Junho de 2010).
** Acadêmico do curso de história na Universidade Federal de São Paulo/UNIFESP e estagiário do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo – MAE/USP

Bibliografia

BERTUCI, Aline Alves. Nova História: Uma reflexão necessária na prática de ensino e pesquisa. In: ALMEIDA, Rosemeire Aparecida de et al (Org.). Prática de ensino e pesquisa em História e Geografia. Campo Grande: Editora UFMS, 2008.
BURKE, Peter. Abertura: a nova história, seu passado e se futuro. In: BURKE, Peter (Org.). A escrita da história: Novas perspectivas. São Paulo: Editora Unesp, 1992.
CARDOSO, Ciro Flamarion e VAINFAS, Ronaldo. Domínios da história: Ensaios de teoria e método. Rio de Janeiro: Editora Campus, 1997.
LE GOFF, Jacques. A história nova. In: LE GOFF, Jacques (Org.). A história nova. São Paulo: Editora Martins Fontes, 1993.

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comentários
  1. Márcio, muito obrigado pelo seu breve, mas importante comentário! Estou feliz em saber que gostou do meu humilde texto, espero receber sua visita ao Blog mais vezes! Tudo de bom…

    Leandro Possadagua [Autor do Blog]

  2. Akemy disse:

    Muito bom,me ajudou muito…
    Akemy (Japão)

  3. Obrigado, Mari… Fiquei duplamente feliz, por seu comentário e visita ao Blog – que anda meio abandonado! Espero que possa voltar aqui mais vezes! Super beijo.

  4. Filipe disse:

    Uma síntese esclarecedora. Você escreve muito bem.

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