Reflexões sobre movimentos sociais e sociedades

Publicado: 21 de outubro de 2010 por Leandro Possadagua em Uncategorized

Fabiano Coelho*

Ao tentar refletir sobre algumas questões que envolvem os movimentos sociais e suas relações com a sociedade, parto da seguinte pergunta: O que é um movimento social? Existem diversos pesquisadores que por meio de seus estudos tentaram conceitualizar o que seria movimento social. Entendo movimentos sociais como grupos organizados coletivamente, que reivindicam direitos negligenciados. Logo, o que define um movimento social não é a luta de classes, mas sim a luta social. Cabe destacar que os grupos não são homogêneos, mas algo que os tornam sujeitos coletivos são os seus objetivos em comum.

Depois de estabelecer um parâmetro para pensar o que seria um movimento social, me remeto um pouco ao contexto histórico. Na década de 1970, período em que o Brasil vivia sob a Ditadura Militar, aconteceu algo extremamente relevante no cenário político e social do país. Neste período, como disse Eder Sader, “novos” personagens entraram em cena na história do país. Em diversas partes do território brasileiro, no campo e na cidade, muitos sujeitos compondo os movimentos sociais começaram a reivindicar o seu primeiro direito, que era o direito de reivindicar.

Não vou fazer análises históricas sobre os movimentos sociais que emergiram na década de 1970, e também na década seguinte, mas enfatizo que os grupos surgidos nesta época foram importantes para muitas conquistas sociais, políticas e econômicas. Os movimentos sociais contribuíram para o processo de democratização do Brasil, que por sinal, não terminou até nos dias atuais.

Ao olhar para atualidade, será que existem movimentos sociais que reivindicam melhores condições de vida para seu grupo e para a sociedade? E como a sociedade visualiza esses grupos que se organizam? A partir dessas duas indagações que as reflexões serão centradas.

Na contemporaneidade, existem grupos que se organizam para reivindicarem seus direitos historicamente negados. Cito como exemplo o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que resiste e luta por terra a mais de vinte e seis anos. Este movimento foi criado oficialmente no ano de 1984, no transcorrer de um Encontro de trabalhadores rurais sem-terra, no município de Cascavel – PR. Desde seu surgimento, tem contribuído de forma significativa para aceleração do processo de reforma agrária no país.

Não se trata de fazer apologia ao MST, até porque o movimento tem seus militantes para fazer isso. Como pesquisador, analiso a relevância das atuações desse movimento para a efetivação da redistribuição de terras, e por colocar a reforma agrária na agenda do Estado brasileiro. Como pensar em democracia e em justiça social diante de uma sociedade tão desigual como a nossa? É nesta perspectiva que os movimentos sociais têm um papel fundamental na sociedade, lutando contra as desigualdades impostas por uma minoria dominante.

No que diz respeito ao olhar da sociedade sobre os movimentos sociais, diante de alguns estudos, e até por minha própria experiência como ser social, entendo que a sociedade permanece conservadora. Por vezes, diversos movimentos sociais são mal compreendidos. Mais uma vez utilizo como referência o MST. Não se pretende dizer que o movimento seja “perfeito”, que suas ações estão sempre corretas, e que não existam “oportunistas” dentro de sua organização. Muito pelo contrário, analiso o movimento de forma crítica, buscando melhor compreensão de suas práticas e representações. Como qualquer organização, o MST também tem equívocos, mas, os mesmos não devem deslegitimar a relevância de sua organização para a sociedade brasileira, ou melhor, para aqueles que necessitam de terra para trabalhar e permanecer. O que acontece, muitas vezes, é que infelizmente a maior parte da sociedade tira suas conclusões sobre o MST partindo das imagens e discursos criados pelos meios de comunicação, que em sua maioria são contra as ações e ideais do movimento e aliados dos latifundiários, ou grandes empresários do campo. Para além de uma visão simplista e tendenciosa, é preciso fazer uma análise crítica dos discursos produzidos pelos meios de comunicação.

A intenção deste breve texto foi de enfatizar a importância dos movimentos sociais na história do Brasil. História esta que é construída a cada dia. Os movimentos sociais evidenciaram e ainda evidenciam que é imprescindível que a população se organize para reivindicar seus direitos historicamente negligenciados. Antes de tirar conclusões precipitadas em relação a ações organizadas por alguns grupos, é preciso conhecer estes em sua essência. Não basta apenas criticar, é preciso conhecer. Espero ter conseguido despertar em alguns leitores o anseio de compreender mais sobre a história de alguns movimentos sociais no país, bem como suas práticas e diversos modos de se movimentar em meio à sociedade. Finalizando, a história tem evidenciado que os pobres do campo e da cidade conquistaram seus diretos com muita luta e organização. É neste sentido que os movimentos sociais se configuram como fundamentais para a sociedade.

*Mestre em História pela Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD) / E-mail: cabiceiras@gmail.com

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