O barquinho

Publicado: 4 de dezembro de 2010 por Leandro Possadagua em Uncategorized

Leandro Possadagua*

Qual certeza nos guia como seres racionais? Não há certezas. Toda convicção é meramente subjetiva e não pode ser partilhada, não existem faróis que nos direcionem à um porto seguro. Somos frágeis barquinhos a navegar em busca de algo que não sabemos o que é. E geralmente não podemos ser acompanhados por mais ninguém, além de nossas próprias inquietações. As lágrimas, essas sim, serão nossas fiéis companheiras. Estarão sempre conosco, e seremos gratos a elas por serem um megafone que nos acorda de nosso sono mesquinho e egoísta, nos trazendo de volta à realidade.

Cada ser constrói com duros tropeços sua jornada de dor e felicidade; e, diante de um penhasco, nada o impede de se lançar ao abismo, não há determinismos, somos livres. A angústia perturba a alma do homem, que está sempre mendigando algum tipo de divertimento, a fim de se esquecer das questões existentes em seu mais íntimo ser. Quem somos? Qual significado tem nossa vida? Não sabemos lidar com esses sentimentos. Estamos sempre assustados com novas verdades e por vezes não as compreendemos. Talvez nunca as compreendamos! À nós, é mais comodo que a verdade nos seja imposta, sem que precisemos pensar sobre, já estamos condicionados a manipulação imposta através de situações e sistemas.

É no velejar árduo da vida que nos conhecemos como seres racionais e condenados a liberdade. Ao menos é essa a idéia que fazemos de nós mesmos. Contudo, a ampulheta da vida se esvai e nos oprime a cada segundo, estamos sempre querendo ganhar tempo. Mas não sabemos ao certo, pra quê precisamos de mais tempo, não entendemos, mas nosso pensamento nunca se ocupa do presente e está sempre perdido entre passado e futuro.

Recordo-me da indagação feita pelo físico alemão Albert Einstein: “O universo é um lugar amistoso?”. Penso, ainda não descobrimos se é ou não. O próprio Einstein não descobriu, embora fosse esse um dos seus maiores desejos como homem. Apenas descobrimos que é necessário dar um passo à diante, como quem caminha num quarto escuro, podendo a qualquer momento bater com o joelho em sua cama. Como crianças, ainda buscamos um pote de ouro escondido por duendes no fim do arco-íris, com a certeza de que em poder deste, poderemos comprar a real felicidade. Mas não há potes de ouro. Só esperanças… , arco-íris! Só ilusões…

Diante desta certeza, a vida se faz demasiadamente complexa, difícil de sobreviver, e não freqüentamos uma escola que nos ensine a trilhar este árduo caminho. O ensino para enfrentar tal desafio nem a mais perfeita pedagogia pode nos oferecer, a menos que seja um embusteiro quem a apresenta. Só o viver nos ensinará; e é certo, que muitas feridas se farão no decorrer deste aprendizado. Somos obrigados a decidir por coisas que não temos a menor noção do que são literalmente. Não compreendemos, mesmo com o passar de anos, o real significado de tudo que vivemos, não aprendemos a lidar com a morte, com as surpresas que nossos corações nos impõem, somos aprendizes em tudo.

Cada fato vivido contém um ensinamento à ser decifrado, cada decepção um novo alicerce lançado para futuras construções, mesmo que estas, não tenham a menor garantia de terminarem com êxito. E se não há garantias, também não há nada pré – determinado e justamente por este motivo, não podemos nos resignar, não podemos nos entregar jamais. Se desistirmos, seremos lembrados por Dante Alighieri que “o pior dos infernos está reservado aos omissos”.

Parece, há um oceano de dificuldades bem a nossa frente, a nossa espera. Não temos bússola alguma que nos oriente para um norte e nada podemos contra as fortes ondas que nos acometem. Esta embarcação que nos sustem, não tem condições de nos livrar do perigo e diante da imensidão da vida, somos frágeis criaturas. A vida sempre nos assustará com mudanças e novidades. Mas aprenderemos que o medo é parte deste eterno navegar e que heróis só são possíveis na Mitologia Grega. Que não existem desbravadores destemidos e que um homem é só, e apenas, um homem. A cena é assustadora e o timão da vida está em nossas mãos, mas mudar a direção é uma escolha pessoal e intransferível.

* Co-autor deste Blog

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comentários
  1. Raquel Medeiros disse:

    Perfeito!

  2. Sarah disse:

    Eu me lembrei de uma cena de um seriado que gosto muito. Quando uma personagem se vê livre daquilo que não necessariamente queria, mas estava fazendo para agradar outros e achando que agradava a si própria, chorava e dizia: “Eu sou livre!”. Mas não como se a liberdade fosse algo bom. O choro era de medo diante dela.

    Escolher é sempre difícil. Aprender com a vida pode ser terrivelmente doloroso. Mas e se não fosse assim? O que nos restaria? A liberdade, no fim, é uma dor necessária. Dores podem trazer algo de bom, mesmo que não pareça.

    Estou divagando.

    Beijos, Leandro.

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