RAPensando o ensino de história

Publicado: 6 de dezembro de 2010 por Leandro Possadagua em Uncategorized

Leandro Possadagua*

Aos esfarrapados do mundo
e aos que neles se descobrem e,
assim descobrindo-se com eles
sofrem, mas, sobretudo, com
eles lutam.

Paulo Freire

Em meados da década de 1970, a cidade de Nova York passava por uma crise financeira que impedia grandes investimentos na educação, este corte de gastos refletiu imediatamente no ensino de artes. Como alternativa para tal carência, os jovens do South Bronx e do Harlem criaram um novo estilo de música. Um adolescente negro do conjunto habitacional Bronx River Houses chamado Afrika Bambaataa seria um dos responsáveis pela criação de um novo estilo musical, o hip hop. Segundo o jornalista americano James McBride, o termo hip hop foi cunhado pelo MC conhecido como Loverbug Starski que segundo se conta costumava dizer “hip hop” enquanto rimava para animar os ouvintes dos bailes (MCBRIDE, 2007).

Neste mesmo período, outro jovem começava a ganhar notoriedade pela prática diferente do aparelho de som convencional, trata-se do hoje conhecido Grandmaster Flash. Enquanto o aparelho de som era convencionalmente utilizado para reproduzir o som de vinis, este jovem inovador fazia movimentos no vinil para assim criar os chamados scratchs, umas das principais atribuições do DJ (DeeJay). Naquela mesma região também começava a ganhar espaço o rapper Koll Dj Herc que então dava bailes no Bronx.

O movimento hip hop surgiu da fusão de três elementos bem familiares às periferias americanas, ou seja, a musica rap (Rhythm and Poetry) que é a união do DJ com o MC (mestre de cerimônia) ou rapper; outro elemento é o grafite, o maior exemplo de manifestação artística advinda deste movimento; o ultimo elemento é a dança de rua, ou como é mais conhecida, breaking. O termo hip hop acabou por tornar-se genérico ao publico adepto do movimento para designar o rap na sua forma mais convencional. O rap pode ser definido como a convenção entre o som produzido pelo DJ e suas pick up’s, e a letra rimada que era cantada em cima da base produzida. Via de regra, as letras rimadas pelos MC’s eram carregadas de protestos contra um sistema considerado opressor, em muitos casos a letra narrava a difícil realidade enfrentada pelos negros e pobres moradores das periferias. Sendo ainda utilizado como mecanismo pacificador das gangues americanas, que trocavam a violência cotidiana pelas “batalhas” do hip hop.

Seria difícil definir aqui como o rap nasceu no cenário brasileiro, já que entre os próprios pesquisadores existem duas correntes para o surgimento deste gênero musical. A hipótese mais recorrente é àquela que pontua o surgimento do movimento na cidade de São Paulo, entre os primeiros anos da década de 1980. Segundo o colunista do jornal Afro Reggae Notícias DJ TR, seu surgimento ocorreu “através de equipes de som que nos anos 70 importaram dos Estados Unidos o soul e o funk” (DJ TR Apud NOVAES, 2002, p. 113). Porém, ainda segundo o mesmo autor, “[…] há relatos na Bahia de ganhadores de pau, escravos que trabalhavam nas ruas de Salvador e que desenvolveram o canto falado com letras de denúncia contra a escravidão”. Com este aspecto histórico, o rap pode ser considerado um estilo musical pautado em elementos significantes da cultura nacional.

A partir da década de 1970 o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), deu inicio a um processo de compreensão do patrimônio cultural brasileiro além dos grandes monumentos e documentos oficiais em que somente as grandes elites se reconhecem. Assim, as denominadas minorias, podem dar inicio ao processo de se reconhecer, pois esta nova perspectiva inclui também manifestações culturais de negros, índios, imigrantes e marginalizados em geral. É possível pensar o rap nacional como patrimônio cultural imaterial e o hip hop como um mecanismo utilizado para proporcionar ao jovem da periferia uma educação que o aproxima de um conceito mais concreto do que é cultura (FONSECA, s/d, p. 112).

Nos últimos anos muito tem se discutido a respeito de uma pretensa renovação na educação brasileira e na prática de ensino de história. Na busca por esta mudança, o rap pode trazer ao educador uma nova possibilidade e ser pensado como um aliado na busca de uma educação que se pensa libertadora. Assim como a MPB – Musica Popular Brasileira, o rap possui a característica de lançar o jovem ao debate, ao questionamento das regras que foram instituídas sem que o consultassem e principalmente, na tentativa de se fazer ouvir pelos que governam por uma minoria cada vez mais insaciável. Sem estas características, o educador terá dificuldades de construir juntamente com o educando uma consciência histórica, já para isso precisa pensar sua própria realidade.

O rap e os adeptos do movimento hip hop, tem ao longo de seu histórico uma relação de conflito com a sociedade em que estão inseridos. Via de regra, os jovens tem uma forte relação com o estilo musical, pois este não os exclui de suas letras, já que em sua esmagadora maioria é produto das periferias do Brasil. As letras são, geralmente, críticas bem formuladas a cerca da realidade social do país, seja ele qual for. Para além disso, a realidade cantada é a mesma vivida. Como sugere a musica soldado do morro do rapper carioca Mv Bill: “Seria diferente se eu fosse maurícinho, criado a sustagen e leite ninho… Colégio particular, depois faculdade… Não. Não é essa minha realidade!”.

As críticas sociais feitas pelos rappers podem ser analisadas em sala de aula na medida em que o educador construir uma ligação entre os “fatos históricos” e a realidade dos jovens – não importando se o jovem é ou não da periferia. Exemplo simples e que pode ser utilizado em sala é a questão habitacional em nosso país, já que muitas letras de rap tecem criticas as políticas habitacionais que são decorrentes de uma enorme desigualdade social. Problematizando esta questão social, é possível refletir a cerca das responsabilidades do individuo na sociedade em que está inserido, sempre buscando auxiliar o educando a inserir-se neste processo, criticamente.

Segundo Paulo Freire, “a partir das relações do homem com a realidade, resultantes de estar com ela e de estar nela, pelos atos de criação, recriação e decisão, vai ele dinamizando seu mundo. Vai dominando a realidade (FREIRE, 1975, p. 43)”. Dentro desta perspectiva o rap tem como principal característica o ativismo social e a luta pela conquista do direito por parte do cidadão que está à margem, que foi excluído dos processos sociais. Seja no Bronx ou no Capão Redondo, o rap foi e ainda é, um instrumento de critica social e política acessível aos jovens da periferia. É acima de tudo um método utilizado para despertar nestes a necessidade de tomarem em suas mãos as rédeas da realidade vivida, sendo também uma possibilidade de pensar o mundo de forma crítica.

Para finalizar, penso que o rap surge não como um messias da educação brasileira, mas como nova possibilidade de enfrentamento a realidade educacional existente em nosso país. Ainda fazendo uso do pensamento de Paulo Freire, esta nova possibilidade de prática de ensino serve como aparato para uma educação que anda na contra-mão da educação que segundo este autor se faz “Bancária”, ou seja, transforma o educando em mero receptáculo para o depósito de informações (FREIRE, 2005, p. 66). Lutando para por a baixo este modelo tradicional de educação, o rap se faz importante na busca por uma educação que busca transformar os receptores em participes da formação do pensamento crítico.

* Acadêmico do curso de história na Universidade Federal de São Paulo/UNIFESP e estagiário do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo – MAE/USP.

Bibliografia

FONSECA, Maria Cecília Londres. Referências Culturais: Base para novas políticas de patrimônio. Políticas Sociais: Acompanhamento e Análise. s/d, p. 111 – 120.

FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1975.

____________. Pedagogia do Oprimido. São Paulo: Editora Paz e Terra, 2005.

MCBRIDE, James. Planeta hip hop. National Geographic. São Paulo: Editora Abril, Abril 2007, p. 110 – 127.

NOVAES, Regina. Hip hop: o que há de novo? In: Perspectivas de gênero: debates e questões para as ongs. Recife: GTGênero . Plataforma de Contrapartes Novib / SOS CORPO Gênero e Cidadania, 2002, p. 110 – 137.

Fontes

BILL, Mv. Despacho Urbano: A ópera rock da favela. Rio de Janeiro: Chapa Preta Filmes, 2007.

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