Arquivo de janeiro, 2011

O jardim

Publicado: 27 de janeiro de 2011 por Leandro Possadagua em Uncategorized

para Raquel Medeiros [Minha flor amada!]

Errei tanto na vida que, por isso, acabei tornando-a um jardim feio e sem atrativos. Agora, com o passar dos anos, posso ver algumas lindas flores nascendo em meio ao caos dos espinhos! Sentir seu perfume será uma tarefa difícil, mas não desisto disso por temer eventuais feridas. Mesmo tendo a alma arranhada, me aproximo e aspiro seu agradável perfume, é divino! Sou grato ao tempo por ter me dado a oportunidade de mais uma primavera, e mais do que isso, a maturidade pra saber conviver entre flores e espinhos. Isso não é mérito meu, nem tão pouco de minhas inconsequências, é graça divina!

Leandro Possadagua

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Gerar, criar

Publicado: 26 de janeiro de 2011 por Leandro Possadagua em Uncategorized

“Todo ser tem em si o dom de criar,
Quando movido pela paixão,
Quando tocado pela beleza,
Quando visitado pela liberdade.

Até os maus são revestidos de lindo dom;
Tocados pelo que é belo,
Não se dão conta
E sucumbem ao perecível.

Gostaria de criar para alguém,
Alguém que fosse especial, e não só isso,
Que estivesse sempre lá, quando a buscar,
Alguém para quem fazer sentido o lindo dom.

Um jardim para florescer a semente,
Um coração para alegrar-se por ser especial,
Um sorriso exclusivo para mim, para sempre,
Pois, eu o criei.”

Péricles Pereira Torres

Inconsolável Segredo

Publicado: 25 de janeiro de 2011 por Leandro Possadagua em Uncategorized

Há vários escritores que de algum modo exerceram (e exercem) influência sobre mim. Mas talvez com poucos eu tenha me identificado tanto quanto com C. S. Lewis. Penso que isso se deve ao fato de que antes de ler qualquer coisa dele, eu já tinha algumas idéias e opiniões que em seus escritos ele expõe de forma absolutamente clara e compreensível. Algo que eu jamais poderia fazer tão bem.

Uma dessas idéias, que na verdade é um dos principais eixos de seu pensamento, se trata do que Lewis chama de “inconsolável segredo” de cada um de nós. Para Lewis, somos seres que carregamos um desejo profundo por algo que está além de nós, da nossa própria vida na Terra. Não dá para contar esse segredo porque nosso anseio diz respeito a algo que nunca pudemos experimentar. Entretanto, todas as nossas experiências, de algum modo, fazem transparecer esse anseio. Por não saber a que esse desejo se refere, buscamos satisfazê-lo em outras coisas que, ainda que nos tragam alguma satisfação, não passam de uma relação simbólica com o que de fato desejamos e nos daria satisfação completa.

Segundo C. S. Lewis, nosso objeto de anseio é o Céu, ou o Paraíso. Não necessariamente o céu como descrito na Bíblia (aquelas representações também seriam relações simbólicas), mas um lugar em que aquilo que chamamos de beleza*, fica para trás e encontramos o que verdadeiramente nos satisfaz, pois nenhuma felicidade natural poderia suprir. Nosso anseio por esse lugar não nos diz que um dia estaremos lá. Lewis utiliza uma analogia interessante: o fato de termos fome não nos diz que teremos comida para comer, mas indica que somos seres que possuímos essa necessidade, por vivermos em um mundo em que ela pode ser suprida, em que há condições para isso. Do mesmo modo, o desejo que temos por esse lugar distante de nosso tempo e espaço, que não conhecemos ou experimentamos, embora não diga que iremos experimentar um dia, é um ótimo indício de que ele existe.

Pensando em tudo isso, Nárnia, o país que Lewis inventou, com todas suas criaturas fantásticas, pode ser entendida como uma representação desse anseio. Por mais que o autor tenha dito que as crônicas de Nárnia sejam unicamente histórias de fantasia, a leitura delas nos permite fazer uma ligação direta com os pensamentos que Lewis desenvolveu sobre o Paraíso. Como eu disse em uma oportunidade passada, considero possível os dois pontos de vista sobre Nárnia: a fantasia, com toda sua mágica e beleza, e a analogia com outras filosofias influenciadas, por causa da crença de Lewis, pelo Cristianismo. E é por esse motivo que Nárnia tem um significado profundo: é o objeto do nosso anseio. É a resposta para nosso inconsolável segredo.

*Quando fala em beleza, Lewis se refere àquilo que nos identificamos ou elegemos como belo e agradável, como representações inconscientes (não no sentido Freudiano, mas como que subjetivas) do que seria o Paraíso. Ou seja, pode ser a Natureza, as artes, a música etc.

Sarah Toledo [Acadêmica do curso de Ciências Sociais da Universidade Federal de São Paulo/UNIFESP. Bolsista de Iniciação Científica com subsídio da FAPESP.]

O menino que quis roubar o Sol

Publicado: 24 de janeiro de 2011 por Leandro Possadagua em Uncategorized

*Crônica Mendes

Teve um menino que quis roubar o Sol,
tentando alcançá-lo subindo no alto do morro.
Pelejando ladeira acima, e o suor escorrendo rosto a baixo num animo que disfarçava o cansaço.
Descalço, por entre os dedos, pequenas pedras se abrigavam e de vez em quando o desconforto lhe roubava alguns preciosos minutinhos, tirando-as dali.
O morro que de longe parecia pequeno, de perto era gigante tão quão a fantasia do menino.
Dizia que ia colocar o sol num pote de vidro e levar para casa na esperança de aquecer o coração frio e bruto do pai, aquecido até então pelos goles.
O mapa da escalada, desenho colorido, havia ficado lá em baixo nos primeiros passos.

Pensava:
Mapa pra que, é só subir reto.

Começou cedo, mas o tempo diminuía logo a luz se tornou trevas e o menino se perdia. O sol se foi, veio à noite.
Ao chegar ao alto do morro, descobriu a Lua e se apaixonou, sentiu-se feliz com a primeira madrugada em claro. Depois adormeceu ali, onde mais tarde foi acordado pelos primeiros raios de sol da manhã, como quem dizia:

– Bom dia menino.
– Bom dia, dia.

Todo feliz, a decida do morro foi bem mais rápida e embalada que a subida.
Ao chegar em casa foi recebido com um forte abraço do pai, que num ato de desespero havia prometido a Lua que iria para de beber se ela devolvesse seu filho.
Assim foi.
Essa é a história do menino que quis roubar o Sol e encontrou a Lua.

*Cantor e compositor do grupo de rap nacional “A Família”. Teve seu primeiro contato com a música e a literatura aos 10 anos de idade, desde então, segue musicalisando e poetizando sonhos e o dia-a-dia.

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Agradeço ao Rapper Crônica Mendes, por ter permitido gentilmente que seu texto enriqueça nosso Blog!

Fonte: Blog CRÔNICA MENDES: HOMEM BOMBA!

Disponivel em: http://cronicamendes.blogspot.com/2011/01/poesia-inedita.html
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O preço de não escutar a natureza

Publicado: 19 de janeiro de 2011 por Leandro Possadagua em Uncategorized

O cataclisma ambiental, social e humano que se abateu sobre as três cidades serranas do Estado do Rio de Janeiro – Petrópolis, Teresópolis e Nova Friburgo -, na segunda semana de janeiro de 2011, com centenas de mortos, destruição de regiões inteiras e um incomensurável sofrimento dos que perderam familiares, casas e todos os haveres tem como causa mais imediata as chuvas torrenciais, próprias do verão, a configuração geofísica das montanhas, com pouca capa de solo sobre o qual cresce exuberante floresta subtropical, assentada sobre imensas rochas lisas que por causa da infiltração das águas e o peso da vegetação provocam freqüentemente deslizamentos fatais.

Culpam-se pessoas que ocuparam áreas de risco, incriminam-se políticos corruptos que distribuíram terrenos perigosos a pobres, critica-se o poder público que se mostrou leniente e não fez obras de prevenção, por não serem visíveis e não angariarem votos. Nisso tudo há muita verdade. Mas nisso não reside a causa principal desta tragédia avassaladora.

A causa principal deriva do modo como costumamos tratar a natureza. Ela é generosa para conosco, pois nos oferece tudo o que precisamos para viver. Mas nós, em contrapartida, a consideramos como um objeto qualquer, entregue ao nosso bel-prazer, sem nenhum sentido de responsabilidade pela sua preservação nem lhe damos alguma retribuição.

Ao contrário, tratamo-la com violência, depredamo-la, arrancando tudo o que podemos dela para nosso benefício. E ainda a transformamos numa imensa lixeira de nossos dejetos.

Pior ainda: nós não conhecemos sua natureza e sua história. Somos analfabetos e ignorantes da história que se realizou nos nossos lugares no percurso de milhares e milhares de anos. Não nos preocupamos em conhecer a flora e a fauna, as montanhas, os rios, as paisagens, as pessoas significativas que aí viveram, artistas, poetas, governantes, sábios e construtores.

Somos, em grande parte, ainda devedores do espírito científico moderno que identifica a realidade com seus aspectos meramente materiais e mecanicistas sem incluir nela, a vida, a consciência e a comunhão íntima com as coisas que os poetas, músicos e artistas nos evocam em suas magníficas obras.

O universo e a natureza possuem história. Ela está sendo contada pelas estrelas, pela Terra, pelo afloramento e elevação das montanhas, pelos animais, pelas florestas e pelos rios. Nossa tarefa é saber escutar e interpretar as mensagens que eles nos mandam.

Os povos originários sabiam captar cada movimento das nuvens, o sentido dos ventos e sabiam quando vinham ou não trombas d’água. Chico Mendes com quem participei de longas penetrações na floresta amazônica do Acre sabia interpretar cada ruído da selva, ler sinais da passagem de onças nas folhas do chão e, com o ouvido colado ao chão, sabia a direção em que ia a manada de perigosos porcos selvagens.

Nós desaprendemos tudo isso. Com o recurso das ciências lemos a história inscrita nas camadas de cada ser. Mas esse conhecimento não entrou nos currículos escolares nem se transformou em cultura geral. Antes, virou técnica para dominar a natureza e acumular.

No caso das cidades serranas: é natural que haja chuvas torrenciais no verão. Sempre podem ocorrer desmoronamentos de encostas. Sabemos que já se instalou o aquecimento global que torna os eventos extremos mais freqüentes e mais densos. Conhecemos os vales profundos e os riachos que correm neles.

Mas não escutamos a mensagem que eles nos enviam que é: não construir casas nas encostas; não morar perto do rio e preservar zelosamente a mata ciliar. O rio possui dois leitos: um normal, menor, pelo qual fluem as águas correntes e outro maior que dá vazão às grandes águas das chuvas torrenciais. Nesta parte não se pode construir e morar.

Estamos pagando alto preço pelo nosso descaso e pela dizimação da mata atlântica que equilibrava o regime das chuvas. O que se impõe agora é escutar a natureza e fazer obras preventivas que respeitem o modo de ser de cada encosta, de cada vale e de cada rio.

Só controlamos a natureza na medida em que lhe obedecemos e soubermos escutar suas mensagens e ler seus sinais. Caso contrário teremos que contar com tragédias fatais evitáveis.

Leonardo Boff é filósofo e teólogo

Um pássaro encantado

Publicado: 11 de janeiro de 2011 por Leandro Possadagua em Uncategorized

DEUS É COMO UM PÁSSARO ENCANTADO que nunca se vê. Só se ouve o seu canto… Deus é uma suspeita do nosso coração de que o universo tem um coração que pulsa com o nosso. Suspeita… nenhuma certeza. Fujam dos que têm certezas. Olhem bem: eles trazem gaiolas nas suas mãos. Os pássaros que têm presos nas suas gaiolas são pássaros empalhados. Ídolos.

Rubem Alves

Contra o conceito

Publicado: 3 de janeiro de 2011 por Leandro Possadagua em Uncategorized

A avaliação de Lula a respeito do que foi sua passagem pelo Palácio do Planalto, um dia após não ser mais o presidente do Brasil, veio não por meio de uma frase política, mas antropológica. Lula disse na TV que o seu legado é o de ter mostrado “ao povo” que cada um dos mais simples poderiam ser presidente e fazer o que tinha de ser feito. O medo da própria incompetência teria senão desaparecido, ao menos diminuído. O “povo” teria visto que “um deles” podia governar, saberia o que fazer, e isso, então, teria trazido um novo tipo de auto-estima ao brasileiro pobre.

Lula acertou no que disse. Mas, sabemos bem, sua avaliação tem mais de desejo próprio do que de realidade espraiada. Pois nosso passado escravocrata, que durou muito mais tempo do que de qualquer outro país das Américas, está longe de ser apagado em seu traços perversos. No Brasil, a idéia de tratar as pessoas bem ou mal segundo hierarquias descabidas é uma lei. Por outro lado, a quebra de protocolos cabíveis, que indicam respeitos necesssários para o bom funcionamento de instituições, surgem no horizonte como se fossem boas democratizações – mas não são!

Assim, não raro vemos um patrão ou um chefe dar ordens a empregados ou funcionários como se fosse um feitor. Enquanto isso, na contramão, vemos alunos entrarem em sala de aula atrasados, sem pedir licença e sem a discrição necessárias. Um sociedade que se democratiza a passos rápidos gera realmente algumas confusões. A pior delas é a perda da noção envolvida na palavra “preconceito”.

Na sociedade atual, especialmente no Brasil, quando se diz “não gosto de X”, logo escutamos a réplica: “ah, você tem preconceito em relação a X”. Ora, isso é conversa fiada. Posso não gostar de X por razões diversas e nenhuma delas revelar preconceito. Preconceito é uma coisa, gosto é outra. Gosto se discute. Preconceito também. O problema é que do modo como fazemos hoje, “preconceito” não se discute. Pois quando alguém é taxado como preconceituoso, ninguém mais quer ouvir suas razões. Ele perde a razão. A tarja “preconceituoso” lhe é posta como a marca que se punha nos leprosos.

Esquecemos que preconceito vem de pré-conceito. Ou seja, há o conceito e, no entanto, alguns apressados não tomariam conhecimento do conceito, ficando em uma noção que estaria aquém do conceito, o pré-conceito. O conceito daria conta da coisa da qual se quer falar. Mas, ficando no pré-conceito, não se pode dar conta do que se quer falar, fala-se então sem apreender as determinações da coisa e, com isso, fala-se de tudo, menos da coisa que se quer falar. Essa é a idéia. Desse modo, valeria ter paciência e apreender o conceito do que se quer falar ou avaliar.

Mas, as coisas não são tão simples. O conceito nem sempre é sacrosssanto. Muitas vezes, temos a paciência do mundo. Muitas vezes, temos a capacidade analítica dos melhores filósofos. Chegamos então ao conceito e, mesmo assim, de nada adianta, pois o conceito é, ele próprio, sempre, uma delimitação e, então, corre o risco de deixar muita coisa de fora. Assim, não raro, apreender o conceito não significa não fazer exclusões mas, ao contrário, apreender o conceito é justamente o canal aberto para legitimar exclusões. Sabemos bem que o conceito pode funcionar como preconceito.

Veja o meu exemplo. Apreendemos o conceito de criança. Então, deixamos Pinóquio de fora da escola, pois um boneco de pau não é criança! Não estamos agindo com preconceito, mas com o conceito. No entanto, no conto do Pinóquio, sua cidade fez melhor do que nós. Bastou ele ter sua cartilha e a escola se abriu para ele. Pinóquio não foi barrado na escola. Nela não existia a regra: aqui o local é para crianças, somente para crianças. Não foi usado nenhum conceito. A escola estava aberta não para ingressantes carimbados por conceitos e, sim, por questões de ordem puramente pragmáticas: ter ou não cartilha. Gepeto vendeu seu casaco e comprou o material escolar. E lá foi Pinóquio para a escola.

Por não ter conceitos, a escola de Pinóquio não correu o risco de cair em preconceitos. Ter conceitos abre espaço para os preconceitos. Ter conceitos é, não raro, já ter no próprio conceito todos os elementos excludentes que diríamos só existir no preconceito.

A melhor medicina da alma, feita filosofia, talvez fosse aquela que pudesse lidar com palavras e noções, abolindo o conceito. Uma boa medicina da alma faria antes a vacinação contra conceitos que a terapia dos conceitos. Eliminaria o conceito de conceito. Para quê conceitos? O que ganhamos com eles? As palavras e as noções não nos dão tudo que eles dão, sem carregar o que eles tem de pior, que é a capacidade de serem excludentes.

Há quem queira fazer da filosofia uma criadora de conceitos. Mas a medicina da alma que aponta a cabeça como filosofia não cairia tão fácil nesse mecanismo de retirada de direitos que, enfim, se apresenta como ganhadora de direitos. Afinal, vejamos o conceito de “humano”. Ele serviu para ampliar direitos ou excluir um bocado de ditos não-humanos de direitos? Haveria um conceito não excludente? Bobagem, todo conceito termina por se enrigecer e funcionar como preconceito. As palavras e as noções não. Elas não aparecem de smoking dando ordens em festas.

Os gregos – ah, mais uma vez eles! – perceberam que os conceitos não eram boa coisa. Eles começaram por falar em “gregos” e “bárbaros”, mas não continuaram com essa conversa conceituando. Pararam bem antes. “Bárbaro” era uma palavra apenas. Eram os “não-gregos”. E os gregos, por sua vez, eram os nascidos do pais gregos. Nem mais e nem menos. Não conceituaram e, por isso mesmo, foram aprendizes de muitos outros povos, inclusive os egípcios e até os seus inimigos, os persas. Além disso, souberem se integrar na cultura macedônica e, depois, romana. Os filósofos gregos nunca gostaram de conceitos. Eles tinham palavras. Elas lhes davam tudo que precisavam. Os gregos não tinham preconceitos.

Paulo Ghiraldelli Jr, filósofo, escritor e professor da UFRRJ

Fonte: Paulo Ghiraldelli Jr. [Blog do Filósofo]
Disponível em: http://ghiraldelli.pro.br/2011/01/03/contra-o-conceito/