Contra o conceito

Publicado: 3 de janeiro de 2011 por Leandro Possadagua em Uncategorized

A avaliação de Lula a respeito do que foi sua passagem pelo Palácio do Planalto, um dia após não ser mais o presidente do Brasil, veio não por meio de uma frase política, mas antropológica. Lula disse na TV que o seu legado é o de ter mostrado “ao povo” que cada um dos mais simples poderiam ser presidente e fazer o que tinha de ser feito. O medo da própria incompetência teria senão desaparecido, ao menos diminuído. O “povo” teria visto que “um deles” podia governar, saberia o que fazer, e isso, então, teria trazido um novo tipo de auto-estima ao brasileiro pobre.

Lula acertou no que disse. Mas, sabemos bem, sua avaliação tem mais de desejo próprio do que de realidade espraiada. Pois nosso passado escravocrata, que durou muito mais tempo do que de qualquer outro país das Américas, está longe de ser apagado em seu traços perversos. No Brasil, a idéia de tratar as pessoas bem ou mal segundo hierarquias descabidas é uma lei. Por outro lado, a quebra de protocolos cabíveis, que indicam respeitos necesssários para o bom funcionamento de instituições, surgem no horizonte como se fossem boas democratizações – mas não são!

Assim, não raro vemos um patrão ou um chefe dar ordens a empregados ou funcionários como se fosse um feitor. Enquanto isso, na contramão, vemos alunos entrarem em sala de aula atrasados, sem pedir licença e sem a discrição necessárias. Um sociedade que se democratiza a passos rápidos gera realmente algumas confusões. A pior delas é a perda da noção envolvida na palavra “preconceito”.

Na sociedade atual, especialmente no Brasil, quando se diz “não gosto de X”, logo escutamos a réplica: “ah, você tem preconceito em relação a X”. Ora, isso é conversa fiada. Posso não gostar de X por razões diversas e nenhuma delas revelar preconceito. Preconceito é uma coisa, gosto é outra. Gosto se discute. Preconceito também. O problema é que do modo como fazemos hoje, “preconceito” não se discute. Pois quando alguém é taxado como preconceituoso, ninguém mais quer ouvir suas razões. Ele perde a razão. A tarja “preconceituoso” lhe é posta como a marca que se punha nos leprosos.

Esquecemos que preconceito vem de pré-conceito. Ou seja, há o conceito e, no entanto, alguns apressados não tomariam conhecimento do conceito, ficando em uma noção que estaria aquém do conceito, o pré-conceito. O conceito daria conta da coisa da qual se quer falar. Mas, ficando no pré-conceito, não se pode dar conta do que se quer falar, fala-se então sem apreender as determinações da coisa e, com isso, fala-se de tudo, menos da coisa que se quer falar. Essa é a idéia. Desse modo, valeria ter paciência e apreender o conceito do que se quer falar ou avaliar.

Mas, as coisas não são tão simples. O conceito nem sempre é sacrosssanto. Muitas vezes, temos a paciência do mundo. Muitas vezes, temos a capacidade analítica dos melhores filósofos. Chegamos então ao conceito e, mesmo assim, de nada adianta, pois o conceito é, ele próprio, sempre, uma delimitação e, então, corre o risco de deixar muita coisa de fora. Assim, não raro, apreender o conceito não significa não fazer exclusões mas, ao contrário, apreender o conceito é justamente o canal aberto para legitimar exclusões. Sabemos bem que o conceito pode funcionar como preconceito.

Veja o meu exemplo. Apreendemos o conceito de criança. Então, deixamos Pinóquio de fora da escola, pois um boneco de pau não é criança! Não estamos agindo com preconceito, mas com o conceito. No entanto, no conto do Pinóquio, sua cidade fez melhor do que nós. Bastou ele ter sua cartilha e a escola se abriu para ele. Pinóquio não foi barrado na escola. Nela não existia a regra: aqui o local é para crianças, somente para crianças. Não foi usado nenhum conceito. A escola estava aberta não para ingressantes carimbados por conceitos e, sim, por questões de ordem puramente pragmáticas: ter ou não cartilha. Gepeto vendeu seu casaco e comprou o material escolar. E lá foi Pinóquio para a escola.

Por não ter conceitos, a escola de Pinóquio não correu o risco de cair em preconceitos. Ter conceitos abre espaço para os preconceitos. Ter conceitos é, não raro, já ter no próprio conceito todos os elementos excludentes que diríamos só existir no preconceito.

A melhor medicina da alma, feita filosofia, talvez fosse aquela que pudesse lidar com palavras e noções, abolindo o conceito. Uma boa medicina da alma faria antes a vacinação contra conceitos que a terapia dos conceitos. Eliminaria o conceito de conceito. Para quê conceitos? O que ganhamos com eles? As palavras e as noções não nos dão tudo que eles dão, sem carregar o que eles tem de pior, que é a capacidade de serem excludentes.

Há quem queira fazer da filosofia uma criadora de conceitos. Mas a medicina da alma que aponta a cabeça como filosofia não cairia tão fácil nesse mecanismo de retirada de direitos que, enfim, se apresenta como ganhadora de direitos. Afinal, vejamos o conceito de “humano”. Ele serviu para ampliar direitos ou excluir um bocado de ditos não-humanos de direitos? Haveria um conceito não excludente? Bobagem, todo conceito termina por se enrigecer e funcionar como preconceito. As palavras e as noções não. Elas não aparecem de smoking dando ordens em festas.

Os gregos – ah, mais uma vez eles! – perceberam que os conceitos não eram boa coisa. Eles começaram por falar em “gregos” e “bárbaros”, mas não continuaram com essa conversa conceituando. Pararam bem antes. “Bárbaro” era uma palavra apenas. Eram os “não-gregos”. E os gregos, por sua vez, eram os nascidos do pais gregos. Nem mais e nem menos. Não conceituaram e, por isso mesmo, foram aprendizes de muitos outros povos, inclusive os egípcios e até os seus inimigos, os persas. Além disso, souberem se integrar na cultura macedônica e, depois, romana. Os filósofos gregos nunca gostaram de conceitos. Eles tinham palavras. Elas lhes davam tudo que precisavam. Os gregos não tinham preconceitos.

Paulo Ghiraldelli Jr, filósofo, escritor e professor da UFRRJ

Fonte: Paulo Ghiraldelli Jr. [Blog do Filósofo]
Disponível em: http://ghiraldelli.pro.br/2011/01/03/contra-o-conceito/

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s