Inconsolável Segredo

Publicado: 25 de janeiro de 2011 por Leandro Possadagua em Uncategorized

Há vários escritores que de algum modo exerceram (e exercem) influência sobre mim. Mas talvez com poucos eu tenha me identificado tanto quanto com C. S. Lewis. Penso que isso se deve ao fato de que antes de ler qualquer coisa dele, eu já tinha algumas idéias e opiniões que em seus escritos ele expõe de forma absolutamente clara e compreensível. Algo que eu jamais poderia fazer tão bem.

Uma dessas idéias, que na verdade é um dos principais eixos de seu pensamento, se trata do que Lewis chama de “inconsolável segredo” de cada um de nós. Para Lewis, somos seres que carregamos um desejo profundo por algo que está além de nós, da nossa própria vida na Terra. Não dá para contar esse segredo porque nosso anseio diz respeito a algo que nunca pudemos experimentar. Entretanto, todas as nossas experiências, de algum modo, fazem transparecer esse anseio. Por não saber a que esse desejo se refere, buscamos satisfazê-lo em outras coisas que, ainda que nos tragam alguma satisfação, não passam de uma relação simbólica com o que de fato desejamos e nos daria satisfação completa.

Segundo C. S. Lewis, nosso objeto de anseio é o Céu, ou o Paraíso. Não necessariamente o céu como descrito na Bíblia (aquelas representações também seriam relações simbólicas), mas um lugar em que aquilo que chamamos de beleza*, fica para trás e encontramos o que verdadeiramente nos satisfaz, pois nenhuma felicidade natural poderia suprir. Nosso anseio por esse lugar não nos diz que um dia estaremos lá. Lewis utiliza uma analogia interessante: o fato de termos fome não nos diz que teremos comida para comer, mas indica que somos seres que possuímos essa necessidade, por vivermos em um mundo em que ela pode ser suprida, em que há condições para isso. Do mesmo modo, o desejo que temos por esse lugar distante de nosso tempo e espaço, que não conhecemos ou experimentamos, embora não diga que iremos experimentar um dia, é um ótimo indício de que ele existe.

Pensando em tudo isso, Nárnia, o país que Lewis inventou, com todas suas criaturas fantásticas, pode ser entendida como uma representação desse anseio. Por mais que o autor tenha dito que as crônicas de Nárnia sejam unicamente histórias de fantasia, a leitura delas nos permite fazer uma ligação direta com os pensamentos que Lewis desenvolveu sobre o Paraíso. Como eu disse em uma oportunidade passada, considero possível os dois pontos de vista sobre Nárnia: a fantasia, com toda sua mágica e beleza, e a analogia com outras filosofias influenciadas, por causa da crença de Lewis, pelo Cristianismo. E é por esse motivo que Nárnia tem um significado profundo: é o objeto do nosso anseio. É a resposta para nosso inconsolável segredo.

*Quando fala em beleza, Lewis se refere àquilo que nos identificamos ou elegemos como belo e agradável, como representações inconscientes (não no sentido Freudiano, mas como que subjetivas) do que seria o Paraíso. Ou seja, pode ser a Natureza, as artes, a música etc.

Sarah Toledo [Acadêmica do curso de Ciências Sociais da Universidade Federal de São Paulo/UNIFESP. Bolsista de Iniciação Científica com subsídio da FAPESP.]

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comentários
  1. viviana Bengelsdorff disse:

    Achei este texto muito interessante.

    Posso dizer que conheço “ao de leve” C.S. Lewis, como mulher cristâ (baptista)

    Alguns dos seus livros estão aqui na nossa biblioteca, e o meu marido, como pastor Baptista lê-os com frequência.

    Entendo e identifico-me com o o que o autor chama de “Inconsolável segredo”.
    Sei muito bem do que ele está a falar.

    Gostei muito de ler.
    Obrigada pela partilha.

    Deixo o meu abraço e o desejo de um lindo dia de terça-feira

    viviana

    • Olá minha linda amiga portuguesa!

      Saudades de suas visitas…

      Em relação ao texto, tenho que dizer que sou fã demais da Sarah Toledo pra opinar imparcialmente. Gosto dos textos dela porque ela demonstra uma sensibilidade refinada pra literatura. Ela é o tipo de autor que eu sinto “raiva” e penso: “Que droga! Eu que deveria ter escrito isso… ” (Risos). Mas, cada um na sua vocação, né?

      Quanto ao Lewis, creio que ele continua muito atual. Vejo em Aslan o Jesus verdadeiro, amoroso e bom! Muito longe do deus severo e aterrorizante que a igreja nos mostra hoje. Por isso, a beleza que Lewis propoe deveria ser mais almejada pelos cristãos modernos.

      Grande Beijo.

      Leandro Possadagua (Co-autor do Blog)

      • Sarah disse:

        Hahahaha, me sinto lisonjeada com seus elogios exagerados, Leandro. Muito obrigada. Mas eu só escrevo o que está na cabeça querendo sair…

        Sobre o Lewis, de fato, ele é bem conhecido no meio cristão. E tem se tornado um pouco mais conhecido agora, eu acho. E embora seja super interessante ver a ligação dele com o cristianismo (pelo menos pra mim que sou cristã, também batista, rs), eu gosto de pensar antes em sua filosofia que nessa relação. Obviamente uma coisa está diretamente ligada a outra. Mas é uma maneira talvez de não simplificar as coisas, tipo: ele escreve isso, dessa maneira porque é cristão. Não, eu vejo: ele escreve isso, dessa maneira E é cristão. E pra mim fica um pouco mais especial. rs.

        Obrigada mais uma vez.

        Beijos.

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