Arquivo de março, 2011

Evolução não, absurdo.

Publicado: 30 de março de 2011 por Leandro Possadagua em Uncategorized

Juliana Mendonça de Farias*

Sempre de manhã antes de ir para a árdua e corriqueira rotina de uma paulista, procuro sair informada quanto ao trânsito, tempo e notícias afins do dia. E para a minha surpresa, semanas atrás, me deparei com tal manuscrito: “Transexual fará primeira cirurgia de retirada de órgãos femininos pelo SUS em SP”. Parei, li de novo e não contive a indignação e revolta dentro de mim quando vi que era verdade o que tinha lido, fui logo postar um protesto em uma rede social.

Talvez os senhores já estejam me apedrejando ao ler o parágrafo anterior, fazendo um rápido perfil de uma cidadã preconceituosa. E se souberem que serei uma futura profissional da saúde me terão como uma ignorante. Mas, antes, peço que se lembrem daqueles que há anos esperam por uma cirurgia; amanhecem nas filas a fim de conseguir uma vaga em um hospital público e que o maior sonho destes é continuar vivendo. Acredito que agora o leitor já sabe onde quero chegar.

O SUS é um sistema com deficiências políticas e estruturais, vemos pessoas morrendo nos corredores dos hospitais por falta de atendimento adequado e há quem diga que o SUS é o melhor sistema de saúde no mundo. É preciso primeiro aprimorar para depois pensarem em evoluir para cirurgias estéticas e optativas. Trata-se de uma questão de prioridades, vida é o foco. No país dos impostos ( como dizia José Nêumanne Pinto), temos que pagar plano de saúde se quisermos ser atendidos bem e em menos de 6 meses para ter uma consulta. Consideraria o caso do transplante transexual uma evolução e benefício do SUS se melhorassem antes a qualidade das estruturas de saúde e quantidade dos profissionais públicos habilitados.

Não consigo me conformar com tal absurdo, o descaso dos engravatados de Brasília me faz perder o espírito de nacionalidade e a forma como os brasileiros aceitam esta situação político-social me desespera, parecem que estão cegos, com as mãos amarradas. E há quem sairá descontente com este texto, usando-o como prova de que o problema do país é preconceito. Só para constar não tenho nada contra os homossexuais, apenas quero que haja bom-senso. Enquanto isso, no mundo dos nobres, a mídia aplaude transplantes estéticos feitos pelos SUS e encobre as falcatruas do governo. Parabéns Brasil, um país cada vez melhor. (Pausa para os risos.).

*Acadêmica do curso de Farmácia e Bioquímica na Universidade Nove de Julho/UNINOVE.

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Uma observação pertinente: Em minha pequena experiência como professor da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, tive muitos desgostos com docentes e diretores que ainda pensam estar em plena Ditadura Militar, ou até pior que isso, que fazem parte do próprio DOPS! Mas, como não podemos abdicar das rosas por causa de seus espinhos, tive a oportunidade e – principalmente!- a honra de ter sido professor da Juliana, uma jovem de fututo promissor e brilhante. Obrigado Ju, você me faz acreditar que o sonho de Paulo Freire por uma educação libertadora não morreu! Juliana é o exemplo de filha que quero ter, inteligentíssima e muito bem educada – com certeza é o orgulho da família! Sua vida e luta me inspiram, sou fã desta menina!

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Depois do Tsunami…

Publicado: 30 de março de 2011 por Leandro Possadagua em Uncategorized

Ana Melo*

Quem de nós já não sofreu as conseqüências deixadas por uma catástrofe? A dor de uma separação, o enfrentamento de uma grave enfermidade, a morte de um ente querido, a partida de um filho, a perda de um emprego ou de um grande amor. Ou ainda pessoas que nos decepcionam e sonhos que não realizamos. De repente, as coisas já não são as mesmas, sentimo-nos perdidos, confusos e desamparados.
Quem já não teve que juntar os cacos, recolher o que sobrou entre os escombros, ou revisitar lugares antes familiares e agora devastados?

E depois, passado o susto, sabemos que precisamos levantar, reunir forças e continuar. A sensação é de impotência. Parece que não conseguiremos seguir em frente. O vazio e a solidão podem ser assustadores. Nos faltam o chão, as referências, a direção e o ânimo para prosseguir.

Um amigo me disse que enfrenta, no momento, a passagem de um tsunami. No seu caso, não houve de fato um terremoto nem ondas gigantescas arrasando o lugar onde vive, mas mudanças significativas em sua vida que o levaram a ter que recomeçar. Sua dor é emocional. Ele sabe que precisará seguir adiante e isso implicará em perdas e renúncias.

Desde o início é assim. O nascimento é a primeira perda de todo ser humano. Nascer é deixar o abrigo do útero materno para, nos primeiros anos de existência, gradativamente, constituir-se a si mesmo como um “eu”, um indivíduo autônomo. Parir também é perder, a mãe deve saber separar-se, “deixar ir”. E assim, por toda a vida, passamos por mudanças inevitáveis e perdas necessárias ao crescimento e à evolução humana. Somente assim podemos realizar grandes conquistas, aprender com as próprias experiências e nos tornarmos plenos e livres.

Apesar dos medos e dúvidas e das tantas sensações de abandono que nos acompanham nos momentos de catástrofes emocionais, o que nos conforta é saber que tudo isso vai passar, que o sol voltará a brilhar, que há mãos amigas estendidas ao longo do caminho e que, após os tsunamis, podemos sim recomeçar.

*Jornalista, psicóloga, mestre em História, professora universitária. Morei por seis anos no Mato Grosso do Sul, onde trabalhei com índios Guarani Kaiowá, aprendendo a respeitar sua luta, sua coragem e sabedoria.

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Fonte: Todas as linhas: Comunicação. Psicologia. Existência.
Disponível em: http://todasaslinhas.blogspot.com/2011/03/depois-do-tsunami.html

Causa e efeito!

Publicado: 30 de março de 2011 por Leandro Possadagua em Uncategorized

Fonte: http://oxblood.tumblr.com/post/3199177235

Canção dos Tribunais

Publicado: 28 de março de 2011 por Leandro Possadagua em Uncategorized

Seguindo o rastro dos salteadores
Surgem os tribunais.
Depois que o inocente é trucidado
Reúnem-se em volta dele os juizes e ele é condenado.
Em torno á cova do trucidado
Também o seu direito é mutilado.

Dos tribunais as sentenças se precipitam
Quais sombras de facões de magarefes. (sombra da morte)
Um falcão desses tem força à beça e dispensa
O contrapeso de qualquer sentença.

Olhem: É um vôo de abutres! Aonde vão?
Do deserto, onde não há nada mais,
Fogem, para comer nos tribunais.
Os assassinos lá estão. Os perseguidores
Em segurança lá estão. E os que roubam
Vão lá esconder seus roubos, enrolados
Num papel onde há uma lei escrita.

Bertold Brecht

Un excepcional ritual indígena en la Amazonia podría desaparecer

Publicado: 28 de março de 2011 por Leandro Possadagua em Uncategorized

El pueblo indígena enawene nawe de Brasil ha iniciado su excepcional ritual anual de pesca, y teme que los ochenta proyectos de presas en la cuenca del río Juruena estén destruyendo su pesca.

El extraordinario ritual Yakwa de esa tribu está reconocido como parte de la herencia cultural del país por el Ministerio de Cultura de Brasil. Sin embargo, en 2009 y por primera vez el ritual no se pudo realizar, ya que los indígenas apenas encontraron peces en los ríos.

Los enawene nawe se enfrentaban así a una escasez de alimentos catastrófica, y la empresa constructora de la presa se vio obligada a comprar tres mil kilos de pescado de piscifactoría para el pueblo indígena.

En 2010 la cantidad de peces fue de nuevo muy baja.

Algunas de las presas que se planean construir están financiadas por la empresa Grupo André Maggi, uno de los mayores productores mundiales de soja.

Durante el ritual Yakwa, los indígenas pasan varios meses en la selva, construyendo complejas presas de madera en los ríos para atrapar a los peces, que luego ahuman antes de llevarlos a sus comunidades en canoa.

Yakwa es una parte vital de la cultura espiritual de estos indígenas, y crucial para su dieta, ya que esta tribu no come carne roja, algo casi único.

En una carta dirigida a Naciones Unidas, los enawene nawe dicen: “No queremos que las presas ensucien nuestras aguas, maten nuestros peces, invadan nuestras tierras”.

El pueblo indígena no dio su consentimiento a las presas. Han organizado bloqueos e invadido el lugar de la construcción de una presa, y han advertido de que éstas podrían causar daños irreversibles a su modo de vida.

El director de Survival, Stephen Corry, ha declarado hoy: “Es una amarga ironía que a la vez que se reconoce el Yakwa como parte de la herencia cultural de Brasil, éste podría dejar de existir muy pronto. Todo el modo de vida de los enawene nawe está en peligro”.

Lee la carta de los enawene nawe a Naciones Unidas (PDF en inglés , en portugués y en enawene nawe)

Fonte: Survival International
Disponivel em: http://www.survival.es/noticias/7123

A Sociedade dos Estudantes Mortos

Publicado: 22 de março de 2011 por Leandro Possadagua em Uncategorized

Dos personagens da minha foto de formatura da escola primária, todos se lembram, hoje, do que ocorreu quatro anos antes da foto, quando do primeiro dia de aula na escola pública. Todos se lembram o nome da professora. A maioria sabe inclusive onde ela mora hoje. Nenhum de nós esqueceu como se chamava a cartilha usada, a Caminho Suave. Nasci em 1957, estudei no Estado de S. Paulo nos anos sessenta, mas ainda sob o fluxo do que havia sido feito com o ensino na década de cinqüenta. A vivência desse tempo foi de fato uma vivência.

Ao entrar em sala de aula hoje, nos cursos de licenciatura de uma universidade pública, encontro estudantes, em sua maioria, entre 18 e 25 anos. Mais de 80% deles não se lembra do nome da primeira professora, a que os alfabetizou. Aliás, não se lembram nada do primeiro dia de aula. Não sabem se foram ou não alfabetizados com alguma cartilha ou não. Os que se recordam de alguma cartilha, não sabem dizer o seu nome. Alguns não conseguem dizer nem se a escola era pública ou particular.

Os da minha geração mostram que viveram o que a escola primária lhes deu. Os que estão na universidade hoje, na sua maioria, mostram que nada foi significativo nos primeiros anos de escola que cursaram, pois ela não os marcou. Não é que a minha geração tem memória e a atual não. O caso é bem mais grave. A escola da nova geração é esta aí, em que o professor ganha mal e, sendo ele bom ou não, sua capacidade sucumbe diante do meio adverso. Ele passa um ano com as crianças e nada ocorre ali que fique como tendo sido uma boa (ou má) vivência. Tenho 53 anos vividos. Os jovens com 18 anos, hoje, com certeza só têm 17 anos vividos. O primeiro ano de escola, eles não viveram. A escola se encarregou de roubar-lhes um ano. E eles acham normal isso. Eles são tão malucos que acham normal que tenham permanecidos mortos um ano, no final do século XX.

Esses alunos irão ser professores. Na prática, eles não foram alunos e, no entanto, vão ser professores. No caso dos alunos da licenciatura em Pedagogia, isso é uma verdade em toda a sua extensão: vão ministrar aulas para crianças, vão alfabetizar, e eles próprios não sabem nada da vivência da alfabetização. Poucos deles, quando perguntados, conseguem descrever os exercícios iniciais que os levaram a se alfabetizar. Estiveram mortos durante um tempo. Reviveram mais ou menos no ensino médio e, agora, na universidade, parecem tentar acordar quando eu começo com uma bateria de perguntas sobre o passado. É nítido um movimento de espreguiçar, uma tentativa de sair da letargia mental em que se meteram, e que os pegou lá por volta dos cinco, seis ou sete anos. Mas, não adianta forçar. Não lembram nada da escola básica. Pois fizeram parte da “sociedade dos estudantes mortos”.

Quando se tem seis para sete anos, é difícil esquecer um bom espetáculo de circo ou um jogo de futebol ou coisa parecida. O primeiro dia de aula, então, nem se fale. Cada um da minha geração diz até se estava chovendo ou não no primeiro dia (não estava!). Os meus alunos das licenciaturas hoje, na sua maioria, não conseguem dizer nem se estavam no planeta Terra nesse dia. Eles não tiveram nenhum espetáculo nesse dia. Não fizeram nada de importante. Não viram ninguém que os cativou. A professora que os recebeu ganhava tão pouco que ela havia se transformado em um nada, igual ao seu salário. Por isso, apareceu como um fantasma na sala de aula e assim foi tomada. E como fantasmas são invisíveis, ninguém a viu. Eis aí a memória dos meus alunos: vazia. A vivência que não houve. O ensino que, se aconteceu, ninguém sabe como. E se notarmos os erros de português dos alunos que entram para a universidade, há se pensar que os tais professores fantasmas eram tão etéreos que não conseguiram segurar nenhum giz, que não puderam fazer nada na lousa.

Estamos vivendo na universidade o caos produzido pelos estados na educação básica brasileira, com o aval e até incentivo de toda a sociedade brasileira. Somos um país emergente com um ensino submergente. Não iremos afundar como o Titanic, pois já estamos no fundo. Só nossos governantes continuam contentes e comemorando – cada um deles diz que, na sua gestão, o ensino está melhorando. Mas eu, sinceramente, ainda não entendi o que é que eles comemoram quanto ao ensino. E que se diga claramente: o fracasso do PSDB em São Paulo, onde há um dos piores ensinos da federação (a cada 4 alunos paulistas que termina o primeiro ano, um deles não foi alfabetizado!), não autoriza nenhum outro governador, seja lá de que partido for, a comemorar. A educação pública no âmbito fundamental, toda ela estadual e municipal, em exames internacionais, não atinge os índices esperados de um país “emergente”.

Não vejo nenhuma ação no âmbito dos estados e municípios para mudar isso. Não vejo nada no MEC que indique alguma preocupação real, efetiva, com essa situação deteriorada e deteriorante a que chegamos. Todos nós sabemos que a questão do ensino brasileiro não é mais uma questão pedagógica. Nem mesmo econômica. É uma questão exclusivamente salarial. Não há como conquistar os jovens de melhor formação a ficarem como professores na rede pública. E é isso, e só isso, que tem feito as pessoas desistirem de serem professores, principalmente quando melhor formadas. Essa é a verdade. O resto é só muita conversa fiada. Talvez várias de nossas autoridades, também muito jovens, tenham elas próprias passado por este ano de “morte súbita” que eu noto que meus alunos atuais passaram. Ninguém sabe como foi alfabetizado e, enfim, se foi mesmo alfabetizado.

Essa bola de neve de ignorância vai nos levar de roldão. Parece que a China percebeu isso. Além de invadir nosso mercado, está comprando terras no Brasil. O próximo passo da ditadura chinesa é, como se sabe, despejar chineses aqui, trabalhadores qualificados. Só então perceberemos, de fato, como que nos inviabilizamos por burrice

*Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo, escritor e professor da UFRRJ

Inocentados assassinos do índio Marcos Verón

Publicado: 10 de março de 2011 por Leandro Possadagua em Uncategorized

Ana Melo*

Após cinco dias de julgamento e várias manifestações de líderes indígenas e militantes em frente ao tribunal, os acusados de matar o cacique kaiowá Marcos Verón são absolvidos por júri popular. O julgamento que encerrou-se na última sexta feira, 26 de fevereiro, em São Paulo, chama a atenção de várias organizações de defesa dos direitos humanos.

Verón foi morto aos 72 anos, em 2003, em Juti, Mato Grosso do Sul, após Estevão Romero, Carlos Roberto dos Santos e Jorge Cristaldo Insabralde espancarem e atirarem em índios que haviam invadido fazenda, na luta para reaver seus territórios. Verón foi levado ao hospital com traumatismo craniano, mas não resistiu.
O julgamento, que começou no MS, mas foi transferido a SP porque a promotoria considerou que não havia como garantir um processo imparcial na primeira corte, chegou a ser suspenso várias vezes por apelações dos réus, que tentaram adiar ao máximo a audiência final.

A decisão acolheu parcialmente as alegações do Ministério Público Federal, mas não reconheceu o crime de homicídio praticado contra Verón e a tentativa de homicídio contra mais seis líderes que estavam com ele e que neste julgamento foram ouvidos pelo júri.

Por que os acusados não foram condenados? Por que não podemos acreditar na Justiça? É difícil compreender ou aceitar este resultado. Mas como já acompanhamos outros casos e sabemos que no Brasil assassinos de índios não são condenados, resta apenas a indignação e a tristeza. Não somente por este caso, mas porque este abre mais um precedente para tantos outros assassinatos de lideranças indígenas que ocorrem no Mato Grosso do Sul e em outros Estados e que poderão ficar impunes.

Livres da acusação de homicídio, os acusados foram condenados apenas por seqüestro, formação de quadrilha armada e tortura. A pena estipulada pela juíza da 1ª Vara Criminal Federal de São Paulo, Paula Mantovani, é de 12 anos e três meses de prisão. Mas poderão cumprir em liberdade pelo fato de já terem permanecido presos durante quatro anos e seis meses, enquanto aguardavam o julgamento. Neste caso, o tempo de prisão é descontado na sentença.

O promotor Luiz Carlos Gonçalves disse que a vitória não é completa, mas o resultado final foi pelo menos um avanço na luta pelos direitos dos índios. Segundo ele, o próximo passo é lutar pela condenação do fazendeiro Jacinto Honório da Silva Filho, dono da fazenda em que ocorreram os crimes e acusado de ter encomendado o assassinato de Verón.

Difícil acreditar que essa condenação possa de fato acontecer.

*Jornalista, psicóloga, mestre em História, professora universitária. Morei por seis anos no Mato Grosso do Sul, onde trabalhei com índios Guarani Kaiowá, aprendendo a respeitar sua luta, sua coragem e sabedoria.