A Sociedade dos Estudantes Mortos

Publicado: 22 de março de 2011 por Leandro Possadagua em Uncategorized

Dos personagens da minha foto de formatura da escola primária, todos se lembram, hoje, do que ocorreu quatro anos antes da foto, quando do primeiro dia de aula na escola pública. Todos se lembram o nome da professora. A maioria sabe inclusive onde ela mora hoje. Nenhum de nós esqueceu como se chamava a cartilha usada, a Caminho Suave. Nasci em 1957, estudei no Estado de S. Paulo nos anos sessenta, mas ainda sob o fluxo do que havia sido feito com o ensino na década de cinqüenta. A vivência desse tempo foi de fato uma vivência.

Ao entrar em sala de aula hoje, nos cursos de licenciatura de uma universidade pública, encontro estudantes, em sua maioria, entre 18 e 25 anos. Mais de 80% deles não se lembra do nome da primeira professora, a que os alfabetizou. Aliás, não se lembram nada do primeiro dia de aula. Não sabem se foram ou não alfabetizados com alguma cartilha ou não. Os que se recordam de alguma cartilha, não sabem dizer o seu nome. Alguns não conseguem dizer nem se a escola era pública ou particular.

Os da minha geração mostram que viveram o que a escola primária lhes deu. Os que estão na universidade hoje, na sua maioria, mostram que nada foi significativo nos primeiros anos de escola que cursaram, pois ela não os marcou. Não é que a minha geração tem memória e a atual não. O caso é bem mais grave. A escola da nova geração é esta aí, em que o professor ganha mal e, sendo ele bom ou não, sua capacidade sucumbe diante do meio adverso. Ele passa um ano com as crianças e nada ocorre ali que fique como tendo sido uma boa (ou má) vivência. Tenho 53 anos vividos. Os jovens com 18 anos, hoje, com certeza só têm 17 anos vividos. O primeiro ano de escola, eles não viveram. A escola se encarregou de roubar-lhes um ano. E eles acham normal isso. Eles são tão malucos que acham normal que tenham permanecidos mortos um ano, no final do século XX.

Esses alunos irão ser professores. Na prática, eles não foram alunos e, no entanto, vão ser professores. No caso dos alunos da licenciatura em Pedagogia, isso é uma verdade em toda a sua extensão: vão ministrar aulas para crianças, vão alfabetizar, e eles próprios não sabem nada da vivência da alfabetização. Poucos deles, quando perguntados, conseguem descrever os exercícios iniciais que os levaram a se alfabetizar. Estiveram mortos durante um tempo. Reviveram mais ou menos no ensino médio e, agora, na universidade, parecem tentar acordar quando eu começo com uma bateria de perguntas sobre o passado. É nítido um movimento de espreguiçar, uma tentativa de sair da letargia mental em que se meteram, e que os pegou lá por volta dos cinco, seis ou sete anos. Mas, não adianta forçar. Não lembram nada da escola básica. Pois fizeram parte da “sociedade dos estudantes mortos”.

Quando se tem seis para sete anos, é difícil esquecer um bom espetáculo de circo ou um jogo de futebol ou coisa parecida. O primeiro dia de aula, então, nem se fale. Cada um da minha geração diz até se estava chovendo ou não no primeiro dia (não estava!). Os meus alunos das licenciaturas hoje, na sua maioria, não conseguem dizer nem se estavam no planeta Terra nesse dia. Eles não tiveram nenhum espetáculo nesse dia. Não fizeram nada de importante. Não viram ninguém que os cativou. A professora que os recebeu ganhava tão pouco que ela havia se transformado em um nada, igual ao seu salário. Por isso, apareceu como um fantasma na sala de aula e assim foi tomada. E como fantasmas são invisíveis, ninguém a viu. Eis aí a memória dos meus alunos: vazia. A vivência que não houve. O ensino que, se aconteceu, ninguém sabe como. E se notarmos os erros de português dos alunos que entram para a universidade, há se pensar que os tais professores fantasmas eram tão etéreos que não conseguiram segurar nenhum giz, que não puderam fazer nada na lousa.

Estamos vivendo na universidade o caos produzido pelos estados na educação básica brasileira, com o aval e até incentivo de toda a sociedade brasileira. Somos um país emergente com um ensino submergente. Não iremos afundar como o Titanic, pois já estamos no fundo. Só nossos governantes continuam contentes e comemorando – cada um deles diz que, na sua gestão, o ensino está melhorando. Mas eu, sinceramente, ainda não entendi o que é que eles comemoram quanto ao ensino. E que se diga claramente: o fracasso do PSDB em São Paulo, onde há um dos piores ensinos da federação (a cada 4 alunos paulistas que termina o primeiro ano, um deles não foi alfabetizado!), não autoriza nenhum outro governador, seja lá de que partido for, a comemorar. A educação pública no âmbito fundamental, toda ela estadual e municipal, em exames internacionais, não atinge os índices esperados de um país “emergente”.

Não vejo nenhuma ação no âmbito dos estados e municípios para mudar isso. Não vejo nada no MEC que indique alguma preocupação real, efetiva, com essa situação deteriorada e deteriorante a que chegamos. Todos nós sabemos que a questão do ensino brasileiro não é mais uma questão pedagógica. Nem mesmo econômica. É uma questão exclusivamente salarial. Não há como conquistar os jovens de melhor formação a ficarem como professores na rede pública. E é isso, e só isso, que tem feito as pessoas desistirem de serem professores, principalmente quando melhor formadas. Essa é a verdade. O resto é só muita conversa fiada. Talvez várias de nossas autoridades, também muito jovens, tenham elas próprias passado por este ano de “morte súbita” que eu noto que meus alunos atuais passaram. Ninguém sabe como foi alfabetizado e, enfim, se foi mesmo alfabetizado.

Essa bola de neve de ignorância vai nos levar de roldão. Parece que a China percebeu isso. Além de invadir nosso mercado, está comprando terras no Brasil. O próximo passo da ditadura chinesa é, como se sabe, despejar chineses aqui, trabalhadores qualificados. Só então perceberemos, de fato, como que nos inviabilizamos por burrice

*Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo, escritor e professor da UFRRJ

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