Aslan e o amor paterno [[ Facebook* ]]

Publicado: 1 de abril de 2011 por Leandro Possadagua em Uncategorized

Leandro Possadagua**

Dostoiéviski e C. S. Lewis são meus autores preferidos! Com o primeiro, aprendi que o cristianismo pode ser experimentado de diversas formas e que mesmo sendo um intelectual, é possível, converter-se à um Deus amoroso e bom. Já com Lewis, conheci a doçura de uma obra que ultrapassa os valores terrenos, descobri a real diferença entre uma literatura comprometida com os valores cristãos genuínos e àquela que se pretende formadora de crianças que futuramente farão parte do corpo de fundamentalistas da igreja cristã.

Em especial, gosto muito da forma como Lewis lida com a questão do eterno, creio que ele consegue transmitir aos seus leitores que a dor é parte da experiência humana e que, todos, seremos feridos em algum momento. Seu cristianismo não exime a dor de nossas caminhadas, pelo contrário, ele nos mostra como podemos tirar proveito destas circunstâncias. O próprio autor quase perdeu a fé quando sua esposa faleceu, e, mergulhado em sofrimentos, escreveu textos magníficos que nos servem como bálsamo para a alma.

Mesmo sendo cristão convicto, questionou: “Onde está Deus quando sofremos?”. Para os cristãos mais fundamentalistas, uma pergunta como esta soa como heresia, mas Lewis era tão destemido que confessou ter sentido muita raiva ao perder sua amada esposa. No cristianismo moderno, há uma espécie de Ditadura velada que impõe a felicidade a qualquer custo. Se você é cristão não pode sofrer, e se sofre, é porque está de alguma maneira desagradando a Deus. Neste cristianismo, o Deus de amor encarnado em Jesus foi substituído pelo Juiz severo e impiedoso nascido na Idade Média.

O evangelho ensinado na maioria das igrejas – sejam elas católicas ou protestantes! – não consegue refletir o amor tão docemente ensinado por Jesus, e isso ocorre, porque os valores morais do reino foram substituídos por bens materiais. Os cristãos abriram mão do eterno em detrimento do “aqui e agora!”.

Em Nárnia, Aslan encarna a figura do Pai amoroso e bom que Jesus tão bem representou. Ao longo da trilogia, Aslan foi discreto, mas pontual em suas palavras, não julgou e sempre trouxe para si àqueles que deslizaram na vida. Foi assim com Edmundo no primeiro filme e com Eustáquio no último. O erro não trouxe repulsa ao coração dele, pelo contrário, serviu como mecanismo de atração; uma maneira de auxiliar na caminhada de quem precisava de ajuda. Em suma, o Leão de Nárnia não se parece, nem um pouco, com o deus tão impiedoso difundido pelo cristianismo atual.

** Nota que escrevi no Facebook. Após uma amiga ter lido o texto, enviou para um jornal que pretende publicá-lo, assim que isso acontecer dou a referência!
* Acadêmico do curso de história na Universidade Federal de São Paulo/UNIFESP e estagiário do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo – MAE/USP

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comentários
  1. Deth Vasconcelos disse:

    Sensacional !!!
    Gostei da forma em que ouve comparação entre Deus e Aslan . Também foi interessante
    o último paragráfo em que ela menciona sobre Edmundo e Eustáquio, o erro deles não afeta no coração de Aslan , afinal , Aslan foi o “grande pai amoroso”.

  2. Querida Deth,

    Suas palavras são como bálsamo que acalenta minha alma. Muito obrigado pelo elogio, pessoas inteligentes não engolem qualquer coisa, por isso me sinto feliz e orgulhoso pelo comentário.

    Em relação a comparação entre Aslan e Jesus, isso não é coisa minha, na verdade o próprio C.S. Lewis deixou isso sempre muito claro. O que fiz, na verdade foi comentar o que tenho visto a respeito do cristianismo propagado nas Igrejas, ou seja, um Deus que não age como um pai amoroso. Me surpreendo com um evangelho tão porcamente manipulador, não me prosto ante este ídolo, alías, pouca gente coerente se prostra. Espero que as leituras de Lewis te aproximem do verdadeiro Aslan, Jesus. E que você não se sinta – nunca! – longe dele.

    Grande e fraterno Beijo.

    Leandro Possadagua

    ATUALIZAÇÃO: O texto “Aslan e o amor paterno” foi publicado no jornal da IMOSP [Igreja Protestante situada na região do Bom Retiro] a algumas semanas.

  3. Péricles disse:

    LINDO !!!
    É desta sensibilidade que precisamos para resgatar-nos do sistema frio, (como da rainha do gelo), é como o sistema eclesiastico por vzs tm s tornado. Glória a Deus por seu coração desejar a pureza e assim captar coisas tão belas para nos transmitir.

  4. Sarah disse:

    Leandro!

    Ouvir (ou ler, ou falar) sobre Lewis é sempre um prazer. Ainda mais quando Aslan aparece no meio, rs. Você definiu muito bem o que penso sobre esse escritor que, não se dedicando a escrever exatamente sobre o Cristianismo, conseguiu inseri-lo de maneira perfeita em todas as suas obras.

    E em todas elas vemos a sombra de Aslan, esse pai amoroso, como você colocou. Lembro de várias passagens entre as crônicas, nas quais Asaln aparece justamente cumprindo esse papel. De ensinar, de orientar, ao mesmo tempo de forma firme e singela. É assim que vejo Deus. Ele não ignora nossos erros, não está disposto a passar a mão em nossas cabeças quando erramos. Mas também não nos acusa de nada. Esse papel, de acusador, caberia ao seu oposto, como sabemos. Ao Tashlan, como na última crônica.

    Quanto às igrejas ou algo nesse sentido, me lembrei de uma frase do próprio Lewis enquanto lia o que vc escreveu. Não que tenha a ver com o assunto diretamente, mas é outra coisa que observo nas igrejas atualmente e que talvez esteja ligada a tantos outros equívocos. Ele diz: “Intensidade emocional em si mesma não serve como prova alguma de profundidade espiritual.”

    Estou em grande dívida com vc, por conta dos textos. Hoje atualizei meu blog, para a Páscoa. Mas trata-se de algo até bastante pessoal. Se quiser usar, entretanto, sinta-se à vontade.

    Um grande abraço. Que Aslan esteja com vc. rs.

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