O caminho

Publicado: 13 de junho de 2011 por Leandro Possadagua em Uncategorized

Ao homem que – eternamente habitará meu coração! Salvador Poçadagua, meu pai…

Um dia, estarei com meus cabelos brancos como eram os do meu pai. Terei caminhado minha jornada com dores, mas não as terei deixado amargurar a alma, como meu pai tão bem o fizera! Acordarei cansado de uma noite mal dormida, afinal, já não serei mais aquele garoto que clamava por colo. Serei eu, um velhinho que passa as tardes lendo livros empoeirados. Nesta noite, meus sonhos me levaram até você. Não sei bem se sonhos ou recordações que estão eternizadas em meu subconsciente, sei apenas que eram doces demais para serem apagadas.

Neste sonho, lembrei-me que bastava a mão de papai estendida junto a minha, para que eu atravessasse um campo de batalhas, sentia-me protegido. Seu sorriso tinha algo de divino, era capaz de acalmar tempestades em meu interior. Ah, como eu queria que Deus tivesse errado, e por descuido, lhe feito eterno. Mas como não seria eterno, aquele que nosso coração faz questão de lembrar a existência? Impossível… As lágrimas são companheiras das lembranças, um líquido que sai quando exprememos o coração!

Levantarei da cama arquejado, sem dúvidas, me lembrarei que estou a cada dia mais parecido com meu pai. E com um sorriso triste, agradecerei a Deus por isso! Calçarei as sandálias e irei até o banheiro – olhando pro espelho, notarei que estou perto de lhe reencontrar, de trilhar a mesma estrada que o levou. Sorrirei, e meu coração se alegrará novamente. Após o café da manhã, olharei para o céu e perceberei nuanças que havia me esquecido, contemplarei mudo, o belo nascer do sol que tingirá meu rosto de cores derivadas de magenta.

Me sentirei impulsionado a sair, mesmo com o frio – já que o sol era apenas belo, mas não o suficiente para aquecer meu ser – sairei da casa inspirando fundo, como quem respira após se livrar de um afogamento. O ar gelado me fará fechar o casaco. Entrarei numa estrada triste e solitária, caminharei passos lentos e claudicantes, buscando entender onde aquilo me levaria. De súbito, serei apanhado por memórias infantis, onde mamãe e papai sempre estavam ao meu lado, esperando baixar a febre ou, até mesmo, me esperando dormir. Serei esbofeteado pelo tempo, impiedoso e cruel inimigo dos que se amam. Sentirei saudade! O coração, já dolorido e velho, se nega a dar o liquido que, outrora, saia dele.

Enquanto caminharei lentamente pela estrada – só após algum tempo notarei que era uma ferrovia! – observarei seus dormentes já cansados. Estes pobres dormentes, mais parecerão a coluna vertebral de um velho como eu. Tanto colunas como dormentes, estão cansados de todo o peso que a vida lhes impôs. Distraído que estava, serei acordado de meus devaneios pelo inusitado. Avistarei um velhinho, vindo em minha direção. Sentirei inveja, porque me parecerá ser mais idoso do que eu, porém, seus passos serão firmes, e com a distância – eu, certamente, terei esquecido meus óculos – não poderei ver traços nem reconhecê-lo.

Haverá, neste velhinho de cabelos brancos, uma certo sorriso, notado a medida em que se aproximara. A esta altura, eu nem saberei onde me encontrava! Mas me sentirei atraído a olhá-lo, na verdade, não conseguirei evitar de buscar sua face. Ora… Seria outro daqueles sonhos, em que a saudade me perturbava a alma? Será possivel, que este era o dia em que me encontraria com o famoso Parkinson, mal de Parkinson? Seria uma alucinação de um velho bobô e imaturo? Ou, quem sabe, minha mente estaria me pregando uma peça? Sinceramente, não saberei responder estas questões!

O doce velhinho estará parado bem a minha frente, a aproximadamente dez metros – Ah, meu Deus! É ele, pai…? Como ele estará bonito naquele dia. Não haverá em sua fase nenhuma expressão de dor ou tristeza. O encontrarei com a barba cumprida, como eu sempre gostei, branquinha… O abraçarei forte. Choraremos muito! Farei carinho em seu rosto, como quando era pequeno, com a sutíl diferença de que naquele momento, seremos dois velhinhos! Segurando meu rosto e olhando bem no fundo nos meus olhos dará um sorriso. Meu coração se alegrará como nunca. Não pronunciará uma única palavra, nem será necessário. Seu olhar dirá com a linguagem que só o amor pode expressar.

Perceberei que não estava sonhando! E que aquela não era uma linha férrea qualquer, era a estrada que me levaria à um lugar maravilhoso e que eu nunca havia visitado! Daremos as mãos, caminharemos até o pôr do sol. Pra onde? Sinceramente não sei. Mas… papai conhece bem o caminho!

Leandro Possadagua

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comentários
  1. Obrigado, linda!

    Saber que gostou do texto paga todo e qualquer esforço para escrevê-lo. Aliás, receber um elogio seu já é um honra!

    Beijão.

    Leandro Possadagua

  2. Fabio Gomes disse:

    Caro Leandro;

    Meu nome é Fábio Araujo Gomes, sou acadêmico de História-UFGD, e fã de seu blog
    Sempre visito, este post foi muito emocionante e de uma profundidade típica das ciências humanas;
    Sabe pessoas que dentro de si não se contentam com nada menos que o pensar profundamente,
    e nesse pensar não se esquecem de quem realmente de uma forma especial nos construiram como
    seres humanos; Nossos pais a eles minhas homenagem!!!

    • Olá, caro Fábio Gomes!

      É uma enorme honra ter um visitante de minha amada Universidade Federal da Grande Dourados e da querida cidade de Dourados! Não sei se você sabe, mas estudei ai por dois anos! E, em julho vou até ai pra visitar meus amigos, espero que possamos nos encontrar!

      Cara, muitíssimo obrigado pelo comentário. Escrevi este texto pensando e chorando de saudade do meu papai, que perdia a 10 meses. Fico feliz demais que tenha se identificado com ele. Aliás, considere seu: use, repasse, faça o que bem entender dele! É nosso!! Minhas palavras não são mais do que a expressão de minhas dores e saudades, pode crer nisso! Concordo contigo, nossos país são nossos alicerces, nossa motivação maior. Sem eles não seriamos quem somos, de forma alguma! Devemos tudo à eles e, as vezes, nem nos lembramos disso.

      Mais uma vez, agradeço sua gentileza! Volte sempre que sentir vontade!

      Abração.

      Leandro Possadagu

      Ps. Se quiser, pode me mandar seus textos que eu publico aqui com prazer!

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