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A nudez dos índios

“Pensam muitos ser cousa detestável ver esse povo nu, e perigoso viver entre as índias, porquanto a nudez das mulheres e raparigas não pode deixar de constituir um objeto de atração, capaz de jogar quem as contempla no precipício do pecado.

Índios e índias tornam-se tanto mais horríveis, quanto mais pintam o rosto e o corpo, na convicção de se embelezarem. Trazem alguns a face rajada de vermelho e negro; outros pintam apenas uma metade do corpo e do rosto e deixam a outra metade com sua cor natural. Outros cobrem o corpo inteiro de figuras, da cabeça aos joelhos, e assim ficam como se estivessem vestidos com uma roupa de Pantalon1, de cetim preto estampado. Quanto às mãos e às pernas, pintam-nas com o suco do jenipapo.

[…]Quando os homens da terra desejam mostrar-se elegantes, como nos dias de cauinagem, de matança dos prisioneiros ou escravos, de perfuração dos lábios de seus filhos, de partida para a guerra ou de outras solenidades, enfeitam-se com penas e outros adornos feitos de penas vermelhas, azuis, verdes, amarelas e de diversas cores vivas que sabem admiravelmente combinar.”

D’ABEVILLE, Claude. História da Missão dos padres capuchinhos na ilha do Maranhão e terras circunvizinhas. Belo Horizonte; São Paulo: Itatiaia; Edusp, 1975, p. 216-21.

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Em defesa da escola pública

“Em resumo, o Estado é espoliado de uma filosofia democrática da educação; em seguida, dos direitos de definir uma política educacional democrática, de supervisionar automaticamente a aplicação dessa política e de encarregar-se da administração do sistema de educação nacional; por fim, de parcela considerável de seus recursos para a educação. Tudo isso, em troca de quê? Os educadores já responderam. Do fomento de privilégios na área da educação. As coisas estão montadas de jeito a favorecerem a expansão da escola particular leiga ou confessional, escolas que raramente perfilham de modo íntegro os ideais de uma educação democrática, e a servirem aos interesses de segmentos da população que prescindem do auxílio do Estado para a educação de seus filhos. Em detrimento, naturalmente, da solução dos graves problemas educacionais com que nos defrontamos e da criação de um verdadeiro sistema de educação nacional de bases democráticas. Sem dúvida, muitos terão motivos para defender, com unhas e dentes, essas medidas. Os que acreditam na Democracia e na instauração dela no Brasil só podem sentir uma sagrada indignação. Nesse assunto, não existem dois caminhos. O substantivo apreciado revela aonde conduz a política de concessões e de conciliações – e isso já basta, como um triste exemplo!…”

FERNANDES, Florestan. Em defesa da escola pública. In: Educação e sociedade no Brasil.

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A recompensa

O aluno principiante tem de começar cumprindo etapas, quer para escapar do castigo, quer para agradar aos pais, quer, na melhor das hipóteses, pela esperança de um bom futuro, que ele nem sequer pode imaginar ou desejar no presente. […] A recompensa que ele vai obter será, de fato, natural ou merecida, mas ele não conhecerá enquanto não tiver obtido.

Claro, ele a obtém gradativamente. A satisfação chega de mansinho, junto com o trabalho tedioso e inevitável, e ninguém pode precisar o dia nem a hora em que cessa o trabalho e começa o prazer. No entanto, é só porque o estudante se aproxima da recompensa que ele se capacita para desejá-la por ela própria. Na verdade, a capacidade de ter esse desejo em si já é uma recompensa prévia.

C.S. Lewis

LEWIS, C.S. O peso da glória. São Paulo: Editora Vida, 2008.

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O último dia de um condenado

“Pode alguém como eu ter algo a dizer, alguém que não tem mais nada a fazer neste mundo? E o que encontraria em meu cérebro maculado e vazio que valha apena ser escrito?

A matéria é certamente rica; e, por mais abreviada que esteja a minha vida, ainda haverá muito – nas angústias, nos terrores, nas torturas que a preencherão desta à derraderira hora – para que usar esta pluma e este tinteiro. Aliás, essas angústias, o único meio de sofrê-las menos é conservá-las, e pintá-las será para mim uma distração.”

HUGO, Victor. O último dia de um condenado. São Paulo: Editora Estação Liberdade, 2010, p. 45.

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Diários Kaioá

“Apareceu na aldeia um índio demente, ou mais propriamente, imbecil. Estava à noite na casa de D. Matilde, apoderando-se da comida que lá fora deixada. Dormiu num galpão, fugiu de madrugada, indo amanhecer próximo a casa de Risquim. Este deu-lhe comida e uma camisa velha. Este rapaz, que chamam Chico, freqüentes vezes aparece por aqui. Tanto brasileiros, como índios, lhe têm algum medo e geralmente lhe dão comida. Anda nu, rasgando toda a roupa que lhe dão. Segundo Justino, fica bravo quando está com fome, e foi com simpatia, que aquele disse ter-lhe dado arroz, mandioca e feijão. Justino queria que ele dormisse na casa de Pedro, que não tem crianças, pois estas lhes têm grande medo. Foi trazido por João Silva, que disse não querê-lo mais na aldeia, porque ele grita muito e brinca com fogo, e assim é perigoso. Não tem parentes nem lá, nem aqui. Como não o querem na aldeia, vão enviá-lo para Dayen. Justino e outros disseram, porém, que não fazia mal ele ficar na aldeia até sábado (p. 180)” .

GALVÃO, Eduardo. Diários de Campo. Rio de Janeiro: Editora UFRJ/Funai, 1996. 395 p.

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Xamãs

“Alguns xamãs fazem questão de propagar à quem queira ouvir, que os índios sob sua proteção espiritual não morrem, a não ser que sejam alvos de feitiçaria, nestes casos se faz necessário encontrar o feiticeiro para que este desfaça a magia que fez. Esta não é função desempenhada por qualquer índio da aldeia, mas sim tarefa para o Capitão da aldeia”.

SCHADEN, Egon. Aspectos fundamentais da cultura Guarani. São Paulo: Edusp, 1974.

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Tomé O apóstolo da América

Tomando os escritos que relatam a presença de São Tomé pela América percebe-se que algumas de suas características se modificaram de acordo com os locais por onde ele supostamente esteve. É perceptível que o seu temperamento sofreu grandes modificações na medida em que avançou em direção ao Oeste. Ao que parece tais modificações de comportamento e também de indumentária, se devem muito mais à variação dos narradores do que propriamente às mudanças no humor de um possível apóstolo real. É a velha história de que quem conta um conto aumenta um ponto e assim o mito foi sendo recriado a cada novo cronista […].

CAVALCANTE, Thiago Leandro Vieira. Tomé O apóstolo da América: Índios e jesuítas em uma história de apropriações e ressignificações. Dourados, MS: Editora UFGD, 2009.

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As epidemias entre os Guarani

Os próprios Guarani, ao tempo dos primeiros contatos, desconhecendo os efeitos do contágio, contribuíram para propagar as epidemias em lugares ainda não tocados pelos europeus.

NOELLI, Francisco S. & SOARES, André Luis R. Para uma História das epidemias entre os Guarani. In: Diálogos (01):165 – 178, Maringá, 1997.

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A morte entre os Guarani

Para os pai (Guarani), a morte é a ultima e mais difícil prova de sua vida na terra que em geral é considerada como prova para a alma e preparação para a vida verdadeira na morada dos deuses (paraíso, ‘terra sem males’).

MELIÁ, Bartolomeu; GRÜNBERG, Georg; GRÜNBERG, Friedl. Pãi – Tavyterã: etnografia guarani del Paraguay contemporâneo. Asunción: CEADUC-CEPAG, 2008.

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A solidão dos morimbundos

A morte é um problema dos vivos. Os mortos não têm problemas. Entre as muitas criaturas que morrem na terra, a morte se constitui um problema só para os seres humanos. Embora compartilhem o nascimento, a doença, a juventude, a maturidade, a velhice e a morte com os animais, apenas eles, dentre todos os vivos, sabem que morrerão […]

Elias, Norbert. A solidão dos moribundos: seguido de envelhecer e morrer. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 2001.
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A recompensa

[…]O aluno principiante tem de começar cumprindo etapas, quer para escapar do castigo, quer para agradar aos pais, quer, na melhor das hipóteses, pela esperança de um bom futuro, que ele nem sequer pode imaginar ou desejar no presente. […] A recompensa que ele vai obter será, de fato, natural ou merecida, mas ele não conhecerá enquanto não tiver obtido.
Claro, ele a obtém gradativamente. A satisfação chega de mansinho, junto com o trabalho tedioso e inevitável, e ninguém pode precisar o dia nem a hora em que cessa o trabalho e começa o prazer. No entanto, é só porque o estudante se aproxima da recompensa que ele se capacita para desejá-la por ela própria. Na verdade, a capacidade de ter esse desejo em si já é uma recompensa prévia[…].

C.S. Lewis

LEWIS, C.S. O peso da glória. São Paulo: Editora Vida, 2008.

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Debaixo da ponte

[…]Nem todos os dias se pega uma posta de carne. Não basta procurá-la; é preciso que ela exista, o que costuma acontecer dentro de certas limitações de espaço e de lei. Aquela vinha até eles, debaixo da ponte, e não estavam sonhando, sentiam a presença física da ponte, o amigo rindo diante deles, a posta bem pegável, comível. Fora encontrada no vazadouro, supermercado para quem sabe freqüentá-lo, e aqueles três o sabiam, de longa e olfativa ciência.
Comê-la crua ou sem tempero não teria o mesmo gosto. Um de debaixo da ponte saiu à caça de sal. E havia sal jogado a um canto de rua, dentro da lata. Também o sal existe sob determinadas regras, mas pode tornar-se acessível conforme as circunstâncias. E a lata foi trazida para debaixo da ponte. Debaixo da ponte os três prepararam comida. Debaixo da ponte a comeram. Não sendo operação diária, cada um saboreava duas vezes: a carne e a sensação de raridade da carne. E iriam aproveitar o resto do dia dormindo (pois não há coisa melhor, depois de um prazer, do que o prazer complementar do esquecimento), quando começaram a sentir dores. Dores que foram aumentando, mas podiam ser atribuídas ao espanto de alguma parte do organismo de cada um, vendo-se alimentado sem que lhe houvesse chegado notícia prévia de alimento. Dois morreram logo, o terceiro agoniza no hospital. Dizem uns que morreram da carne, dizem outros que do sal, pois era soda cáustica. Há duas vagas debaixo da ponte.

Carlos Drummond de Andrade

ANDRADE, Carlos Drummond de. Obra Completa. Rio de Janeiro: José Aguilar Editora, 1967.

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Classificação em Arqueologia

Em muitas feições, a “nova arqueologia” é uma tentativa de criar uma disciplina acadêmica a partir do que era, em grande parte, uma empresa não acadêmica, na suposição de que os objetos, tão amplamente enfatizados pela “velha arqueologia”, não justificariam a posição de disciplina no mundo acadêmico como um ramo válido do conhecimento.

DUNNEL, Robert C. Classificação em arqueologia. São Paulo: Edusp, 2006

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