Trocando Idéias

Trocando idéias: Espaço dedicado àqueles que tem algo a dizer!!

Ele nasceu em Apucarana/ PR e cursou toda a educação básica em sua terra natal. Possui graduação em História na Universidade Estadual de Londrina e posssui mestrado em História pela Universidade Federal da Grande Dourados. Já atuou como docente na educação básica. Atualmente, leciona na Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul/UEMS, desenvolve pesquisas na área de História Indígena e é doutorando em História pela Unesp de Assis/ SP. Hoje estamos Trocando Idéias* com Thiago Leandro Vieira Cavalcante.

TI – Trocando Idéias
TC – Thiago Cavalcante

TI. Quem é Thiago Leandro Vieira Cavalcante?

TC. Definir-se a si mesmo é uma tarefa das mais difíceis, por isso não vou me arriscar muito. Diria que sou um sonhador que já realizou alguns dos seus sonhos, abandonou a outros e espera ainda realizar a maioria deles.

TI. Certa vez Le Goff escreveu que “a memória é seletiva!”. Partindo deste princípio, como foi sua infância?

TC. Foi uma infância boa. Até meus sete anos, mais ou menos, tudo correu muito bem, lembro-me do cuidado que a minha mãe e minha tia dispensavam a mim, das festinhas de aniversário que minha mãe costumava promover, lembro também da rígida educação que minha mãe me dava, naquele tempo a vara de marmelo ainda era muito usada, quase todas são boas lembranças. Meus primeiros anos na escola também são bastante positivos em termos de recordações, minha família desde cedo me mostrou o valor da educação. Depois de 1990 as coisas ficaram bem mais difíceis, a situação econômica do país ficou um horror, meu pai passou muitos anos sem emprego ou em subempregos, a partir de então minhas memórias já são menos positivas. Tive que abrir mão de atividade normais para crianças de minha idade para ajudar meus pais com trabalhos de costura que faziam em casa e durante algum tempo trabalhei como vendedor ambulante de sorvetes, isso nas férias, para não prejudicar os estudos. Obviamente que as situações difíceis me deram muitas lições que me ajudaram e continuam a ajudar. Acho que tudo isso influenciou na formação de minha consciência política.

TI. Como e por que decidiu ser historiador?

TC. Meu sonho de infância e adolescência era ser médico, o motivo era porque eu queria ficar rico, ainda bem que não deu certo, do contrário, talvez hoje eu fosse mais um dinheirista da máfia de branco. Como na época em que fiz vestibular a medicina era algo impensável para mim (é bom lembrar que em 2000 não havia qualquer política assistencial semelhante às que foram implantadas pelo governo Lula), escolhi um curso que fosse possível às minhas condições de vida. Precisava ser um curso noturno, que permitisse conciliar o estudo com o trabalho, tinha que ser um curso barato em termos de despesas com materiais e ser em uma universidade pública. Como, desde o ensino médio, eu já havia percebido que minhas afinidades direcionavam-me para as ciências humanas, escolhi o curso de História, ele era o único que eu sabia, ou imaginava que sabia, o que era. Ciências Sociais, Filosofia e etc., eram coisas completamente estranhas a mim. Embora a ditadura já tivesse terminado a mais de uma década, até então essas disciplinas ainda não haviam sido reimplantadas na educação básica. Depois, com o andar do curso, percebi que havia feito a escolha certa, me identifiquei com a área e resolvi apostar na sequência de meus estudos. Sinto que de fato me tornei um historiador quando fiz o curso de mestrado, pois tive condições de fazer uma pesquisa na qual apliquei os métodos da área. Na graduação não consegui fazer praticamente nada nesse sentido, como eu trabalhava e estudava, o tempo que sobrava mal era suficiente para ler os textos das disciplinas.

TI. Sendo de família pobre, quais os maiores desafios que enfrentou na sua caminhada acadêmica?

TC. Sempre foi a falta de dinheiro, modéstia à parte, sempre fui um bom aluno, nunca tive problemas de aprendizagem. Apesar disso, a falta de dinheiro me limitou muito, nunca pude, por exemplo, fazer um bom curso de Língua Estrangeira durante o período em que era estudante, isso faz muita falta quando você entra na pós-graduação, ai o jeito é correr atrás do prejuízo. Voltando um pouco mais atrás, comecei a trabalhar em uma empresa de produção e comércio de aviamentos para bonés, em minha cidade natal, quando tinha apenas treze anos, desde então, até a conclusão da graduação estudei no período noturno. Sabe-se que infelizmente na educação básica o ensino público tem problemas, quando se fala de ensino noturno esses problemas se potencializam ainda mais. Como se não bastasse, a única escola que oferecia a sétima séria nesse período ficava do outro lado da cidade e como eu não podia gastar meu mísero salário com condução, ia estudar de bicicleta, foi um ano difícil. Depois consegui ir para uma escola central, mais próxima de minha casa. Quando fui para o último ano do ensino médio, consegui uma bolsa parcial em um colégio privado, queriam por minha foto na propaganda entre aqueles que foram aprovados no vestibular. Então fui para esta escola, fazer o chamado “terceirão noturno”, na prática era um cursinho pré-vestibular. Nesse período continuei trabalhando, afinal precisava pagar os 30% não inclusos na bolsa, isso dava mais ou menos ¼ do meu salário, era muito porque eu tinha que ajudar nas despesas da casa, isso foi no ano 2000 e eu ganhava R$350,00 líquidos. Apesar de passar o dia todo trabalhando e ir para a aula, à noite, quando chegava em casa, estudava pelo menos mais umas duas horas antes de dormir. Tínhamos aulas aos sábados, às vezes aos domingos. Foi puxado, mas consegui passar no meu primeiro vestibular, quando ainda falta um semestre para terminar o ensino médio. Foi complicado, mas valeu à pena. Naquela época era tudo muito difícil, as vagas no ensino superior eram muito menos numerosas do que são hoje. Na Universidade Estadual de Londrina, a concorrência do curso de História era de 11 candidatos por vaga, muito mais do que hoje em dia. Hoje, raramente a concorrência é superior a 4 candidatos por vaga, uma mudança muito positiva, pois indica que a quantidade de vagas no ensino superior público ou privado com financiamento público aumentou muito durante o governo do presidente Lula, essa foi uma das principais conquistas desse período.

TI. Em sua opinião: O que mudou nestes oito anos de governo Lula? E qual o impacto destes dois mandatos pra educação brasileira?

TC. A mudança fundamental foi nas prioridades, passou-se a priorizar as ações que visam à diminuição das desigualdades sociais. Infelizmente essas desigualdades não podem ser superadas em apenas oito anos, mas é inegável que o país teve um grandioso avanço. Em relação à educação, o maior avanço se deu no ensino superior. Lula criou muitas universidades federais e muitos novos campi universitários. Além disso, criou condições para a revitalização das universidades que ficaram sucateadas após os dois mandatos de FHC. O Prouni também possibilita o acesso de muitos estudantes pobres às instituições privadas, há obviamente algumas críticas sobre o financiamento público no ensino privado. O ideal seria que educação e também a saúde fossem totalmente estatizados, mas na situação atual, o Prouni cumpre um papel importante, seria sim abominável se essa fosse a única grande investimento do governo, até aqui esse não tem sido o caso. Os concursos públicos possibilitaram a renovação e recomposição dos quadros técnicos e docentes, tudo isso fez como que o número de vagas fosse ampliado numa escala muito grande. Além de tudo, ampliou-se de maneira surpreendente o número de bolsas de estudo que garantem a permanência dos alunos mais carentes, além de estimular a iniciação científica. A pós-graduação e a pesquisa foi igualmente beneficiada. Acho que estamos no caminho certo. O ensino técnico também tem recebido muitos investimentos do governo federal. O grande problema do Brasil ainda é a educação básica, embora os números do IBEB demonstrem uma gradual melhora, na prática o que vemos ainda é muita deficiência, infelizmente os alunos que ingressam no ensino superior têm sérias deficiências no que diz respeito à leitura e a escrita. Essa deficiência compromete toda a formação superior do estudante. Enfim, nesse campo o desafio é grande nessa área, espero que no próximo governo a questão seja tratada como prioridade. Talvez a federalização fosse a melhor saída, as prefeituras e os estados historicamente não demonstram comprometimento para a questão, vide a rejeição da parte dos estados mais ricos ao mísero piso nacional salarial do magistério.

TI. De que forma acredita que Dilma Roussef vai lidar com a questão indígena e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra/ MST?

TC. Embora as duas questões estejam ligadas à questão agrária, são questões diferentes. Em relação aos indígenas, trata-se de direito originário, garantido pela constituição de 1988. O caso que mais me chama atenção é o dos povos Guarani e Kaiowá de Mato Grosso do Sul, embora já tenham se passado mais de vinte anos da promulgação da carta constitucional, muito pouco foi feito em termos de demarcação de suas terras. A esperança é de que o governo de Dilma dê continuidade e agilize esses processos. A FUNAI não pode mais ser um órgão de segunda categoria na organização estatal brasileira. Não podemos ser ingênuos em acreditar que ela irá resolver a questão de uma hora para outra, a presidente tem um perfil desenvolvimentista, às vezes conflitante com os interesses dos povos indígenas. Por outro lado, precisamos lembrar à presidente que as principais forças contrárias aos indígenas em Mato Grosso do Sul apoiaram o candidato opositor e conquistaram a vitória eleitoral no pequeno colégio eleitoral do estado. Os indígenas e seus aliados, pelo contrário, apoiaram Dilma e agora esperam que a presidente atenda às suas expectativas. Os problemas dos indígenas não se restringem ao da falta de terra, mas quase todos são derivados desse, por isso, acredito que todas as outras tentativas de solução sejam apenas paliativas. A mobilização dos indígenas e das entidades que lhes apóiam continua sendo imprescindível. Vencemos a eleição, mas não sozinhos, agora é o momento no qual os diversos setores da sociedade que apoiaram Dilma irão buscar o atendimento de suas reivindicações. Os movimentos indígenas e indigenistas não podem deixar de se posicionar. Quanto ao MST, a declaração da presidenta de que eles não serão tratados como caso de polícia é bastante significativa, demonstra a boa vontade da nova mandatária para o prosseguimento da reforma agrária. Não há dúvida de que há muita terra no Brasil concentrada nas mãos de poucos. Esses poucos, quando produzem, não têm os olhos voltados para a produção de alimentos para o mercado interno. Muitas vezes as terras são meros elementos de especulação imobiliária, em outros casos, ainda piores são utilizadas para “lavagem” de dinheiro, inclusive do tráfico de drogas. A situação não pode continuar assim, terras que não cumprem sua função social devem ser desapropriadas e destinadas à reforma agrária. O limite de tamanho para propriedade de terras seria uma lei revolucionária no Brasil. Tanto a questão das terras indígenas, quanto à da reforma agrária, são questões urgentes, mas muito delicadas. Qualquer iniciativa que ameaça a propriedade é vista como heresia e suscita fortíssimas forças de oposição. Até mesmo aqueles que não possuem propriedades se posicionam contrariamente, pois, embora a maioria da população seja desprovida de bens, a mentalidade que impera ainda é a burguesa. Cabe à Dilma costurar as alianças necessárias e enfrentar as oposições para não frustrar as expectativas desses povos.

TI. Em sua dissertação de mestrado intitulada Tomé, o apóstolo da América: índios e jesuítas em uma história de apropriações e ressignificações, você discute o mito de Pai Sumé. Como surgiu isso?

TC. Como quase tudo, por acaso. Um amigo meu, padre Antonio José de Almeida, que era pároco da catedral de Apucarana e doutor em teologia, me sugeriu a leitura do livro “Conquista Espiritual” do padre jesuíta Antonio Ruiz de Montoya. Escrita no século XVII, essa obra é uma das mais importantes fontes históricas sobre as missões jesuítico-guaranis do antigo Paraguai para esse período. O livro trata do mito e foi a partir daí que resolvi fazer esta pesquisa e procurar outras fontes sobre o tema.

TI. Seu livro Tomé, o apóstolo da América foi publicado pela Editora da Universidade Federal da Grande Dourados/ Editora UFGD. Esta é uma publicação literal de sua dissertação ou você aborda outros aspectos no livro?

TC. O livro não tem o mesmo conteúdo da dissertação. Para o livro, por exigências editoriais tive que reduzir o número de páginas. Então algumas questões mais arqueológicas foram retiradas. Sobre essas questões publiquei um artigo na Revista de Arqueologia da SAB. O livro foca então a questão central da dissertação, ou seja, as apropriações e ressignificações que o mito sofreu nos séculos XVI e XVII.

TI. Na sua opinião, de que forma disciplinas como: arqueologia e antropologia podem auxiliar os povos indígenas de nosso país?

TC. Também podemos incluir a história como disciplina que contribui para a causa dos povos indígenas. A principal contribuição dessas disciplinas para com os povos indígenas é a de torná-los conhecidos. Desde o período colonial os indígenas são vítimas de preconceitos dos mais diversos, além disso, e como resultado dessa situação, foram e em alguns casos, continuam sendo sistematicamente espoliados. Muito desse preconceito se deve ao desconhecimento que os não-índios têm em relação aos povos indígenas, nesse sentido as ciências podem contribuir de maneira muito significativa. Em outra via, os estudos são também muito importantes para a fundamentação das reivindicações de direitos para esses povos. Os profissionais dessas áreas não podem perder de vista essa dimensão de seu trabalho. Obviamente, isso não significa que devem agir apenas como militantes, garantindo o rigor de seus trabalhos os pesquisadores garantem a lisura dos processos que podem culminar no atendimento das reivindicações dos diversos grupos indígenas.

TI. Certa vez você disse que não gosta da arqueologia que fica apenas nos cacos, referindo-se a arqueologia que não exerce poder político-social e que se restringe a análise de artefatos. Como é possível alterar este panorama?

TC. Acho que é uma questão de opção, a arqueologia não pode se limitar a estudar somente a cultura material, é preciso estudar o humano que está associado aos artefatos. Quando digo isso, me refiro ao humano em sua integridade, não apenas em seus aspectos tecnológicos e econômicos. O desafio da arqueologia é estudar por meio dos artefatos a religião, a cultura, as relações sociais, o simbolismo, etc.

Foi um prazer dar esta entrevista, um abraço.

*Agradeço ao grande amigo Thiago, pela gentileza de ter aceito o convite de participar desta entrevista. Uma vez – via MSN – disse pra ele, que sua história é motivadora, mostra pra nós brasieliros que o jovem da periferia pode sim, alcançar seus sonhos! Capacidade intelectual nós temos e, mesmo com dores, podemos chegar aos nossos objetivos. E como diz a música do rapper GOG [Part. Rapadura e Lindomar 3L]: “Periferia tem talento…”

** Acesse o Blog do Thiago Cavalcante [http://palavrasdothiago.blogspot.com]

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Sérgio Vaz clicado pelas lentes da Revista Trip

Ele fundou um sarau em um dos bairros mais carentes de São Paulo, o Piraporinha. Não é correto dizer apenas dele: Criou o Sarau da Cooperifa! Ele fez muito mais que simplesmente criar um sarau em uma área carente de cultura, fez poesia da dura vida dos trabalhadores, brincou com palavras e decifrou pro mundo o que é ser um poeta engajado. Das noites de insônia colheu seus frutos: reconhecimento! Já concedeu entrevistas á grandes emissoras, recebeu prêmios, publicou seus livros, e acima de tudo, trouxe um sorriso no rosto daqueles que conhecem seu trabalho! Segundo a Revista Época ele “é invocado, teimoso e original”. Sou suspeito pra falar dele, desde que o conheci sempre o encontro com o mesmo sorriso no rosto. Nunca com o mau humor típico dos intelectuais, nem tão pouco a arrogância dos artistas, sempre com a mesma simpatia. Desta vez o Trocando Idéias é com o brilhante e descontraído poeta Sérgio Vaz… Em entrevista exclusiva cedida ao Blog ele fala de futebol, poesia, literatura e política. Papo maravilhoso que você não pode deixar de conferir. E como ele mesmo brada ao iniciar o sarau: É tudo nosso!*

TI – Tocando Idéias
SV – Sérgio Vaz

TI. Pra quem não te conhece (o que é raro!), quem é Sérgio Vaz?

SV. Um poeta, muito mais na essência do que na escrita. Alguém que acredita em sonhos.

TI. Como é sua vida quando não está na Cooperifa?

SV. Gosto de ler, adoro futebol (sou Palmeirense), curto a vida de casado com minha mulher e filha, uma cerveja e um churrasco me apetece muito.

TI. De que maneira surgiu e o que é a Cooperifa?

SV. A Cooperifa surgiu numa fábrica abandonada, em Taboão da Serra, com a mesma idéia da semana de arte moderna, que era ter vários eventos num mesmo lugar, tipo: teatro, música, literatura, artes-plásticas, etc. Tinha em mente, junto com outros artistas, dessacralizar um símbolo tão importante da arte elitista. Em 22 ele se contrapunham a arte que vinha da europa, nós, a do centro do país.

TI. Certa vez Tolstói escreveu que “se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia”. Você concorda com esta afirmação, acha que se quisermos mudar o mundo deveríamos começar por nosso bairro?

SV. Estas palavras estão escritas na minha Bíblia. Leio e as interpreto todos os dias pela manhã. Não se faz uma revolução mundial sem passar pelas pessoas. Não se transforma um país sem transformar as pessoas. Disso quis fazer o meu trabalho: transformar nosso bairro num país. E depois, no mundo.

TI. Dos autores que leu qual o que mais te seduziu?

SV. Li muito Pablo Neruda, Ferreira Gullar, Jorge Amado. Li com muita paixão “Os miseráveis e Dom Quixote” que mudaram minha vida. Sempre gostei dos Latinos Vargas Lhosa, Garcia Marques, Galeano, Isabel, Allende, e mais uma pá de gente que agora me foge o nome.

TI. Como poeta e fundador do Sarau Cooperifa, é evidente que a leitura tem papel fundamental em sua vida, mas em nosso país a literatura ainda é pouco difundida se comparada a países que pertencem ao velho Continente: França, Inglaterra, Itália e etc. Neste sentido, qual seria a melhor estratégia para que este índice seja revertido, sobretudo nas periferias do Brasil?

SV. As pessoas não lêem por que o livro é caro, não leem porque não tem o hábito da leitura. A classe média e os ricos também não leem e eles podem comprar livros. Nunca se escreveu tanto no país, e a cada dia temos menos livrarias, irônico, não?! Pois este fenômeno, acredito, se dá porque no país não se pensa numa formação de leitores. É preciso ajudar quem escreve, mas também quem vai ler.

TI. Sérgio, certa vez Bertold Brecht escreveu que: “O pior analfabeto é o analfabeto político”. Você concorda que a indiferença da maioria dos jovens e relação á política, em nosso país, é uma confirmação de que estamos diante de uma geração de “analfabetos políticos”?

SV. Sim, é claro! Se uma pessoa não tem cultura, não consegue formular um pensamento crítico. E quem não tem pensamento crítico…

TI. Em entrevista à Marília Gabi Gabriela, você disse que: “Espaço público na periferia é boteco e igreja!” Depois que a Cooperifa surgiu, isto mudou, ou ainda há muito que fazer?

SV. Hoje existem mais de 70 saraus acontecendo nos botecos do país. Não adiantou nada negar literatura pra gente. (Risos)

TI. O que você tem a dizer sobre a atual política do PSDB que está indo para 20 anos de Governo no Estado de São Paulo?

SV. O PSDB é um partido difícil porque não dialoga com a periferia, e você sabe que, com a educação com progressão continuada o analfabetismo funcional é muito grande. Isso precisa ser revisto, em nome da educação brasileira.

TI. Como analisa os dois mandatos do presidente Lula?

SV. O primeiro mandato foi ruim, mas no segundo ele se recuperou, tá longe de ser o governo dos nossos sonhos, mas foi o melhor que nós já tivemos, nesses últimos 500 anos.

TI. Se pudesse deixar um poema escrito no coração das pessoas que te lêem, qual seria?

SV. “Você é aquilo que faz, quando ninguém está vendo”.

* Agradeço ao poeta Sérgio Vaz pela gentileza de ter aceito o convite da entrevista. Sem dúvida este é um dos caras que mais fazem pela cultura nas periferias de São Paulo, ou melhor, pelas periferias do Brasil. Sem palavras Sérgio.. É tudo nosso!!

Fonte: Foto retirada do site da Revista TRIP [http://revistatrip.uol.com.br/revista/191/papo-de-boteco.html]

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Caio Santos e Pablo Sangalli* são estudantes de História da Universidade Federal da Grande Dourados/UFGD-MS, e, além da vida acadêmica ainda enfrentam o grande desafio de coordenar o CAHISD (Centro Acadêmico de História da UFGD). Eles são os convidados de honra deste Trocando Idéias. Nesta entrevista temos a oportunidade de ver e sentir como pensam e, principalmente, agem os estudantes de história que tem grande engajamento político e social, sendo também uma oportunidade pra discutir a respeito dos caminhos percorridos pelas universidades, assim como o envolvimento de seus estudantes em questões relevantes. Fique mais um pouco e participe do Trocando Idéias

TI. A princípio, gostaria de agradecer a gentileza de terem aceitado o convite para esta entrevista. E pra começar, gostaria que vocês definissem quem são Caio Santos e Pablo Sangalli?

C&P. Dois acadêmicos de História nascidos em 1990, amigos desde o Ensino Médio, que compartilham do entusiasmo pela História e recentemente reativaram o Centro Acadêmico do curso que se encontrava abandonado a aproximadamente dois anos. Caio atualmente é Presidente do Conselho do CAHISD, Pablo é tesoureiro e um dos conselheiros do CAHISD.

TI. Como decidiram cursar faculdade de história?

C&P. Por ter grande admiração pelos temas históricos abordados e pela importância que a História tem para a formação do intelecto do cidadão, por vezes tão desvalorizada.

TI. Qual a linha de pesquisa que mais lhes interessa? O que vocês pesquisam?

C&P. Caio: História Medieval. Desenvolvo projeto de extensão PIBID, voltado para licenciatura.
Pablo: Ciência Política. Pretendo aprofundar-me nesta linha em uma futura pós-graduação.

TI. Por que a decisão de se envolver diretamente com o Centro Acadêmico e o que pretendem com isso?

C&P. Achamos um absurdo um Centro Acadêmico, principalmente do curso de História, estar abandonado da forma que estava. E também porque não queríamos simplesmente passar pelo curso sem nos envolvermos diretamente com os interesses do curso e dos acadêmicos, que necessitam de representatividade. Temos vários projetos para implantarmos no CAHISD, como criação de um Estatuto, realização de eventos esportivos, festivos e acadêmicos (como a Semana de História, que não é realizada a algum tempo), suporte viagens acadêmicas, entre outras atividades direcionadas aos estudantes do curso. Todos os projetos e atividades do CAHISD são divulgadas no nosso site: http://www.cahisd.com, que também é uma iniciativa nossa.

TI. Como funciona o CAHISD?

C&P. Através de um Conselho. Somos 12 Conselheiros, com mesmo poder de voto em Assembleia Geral, na qual decidimos as ações do Centro Acadêmico.

TI. Como acontece a política dentro da universidade?

C&P. De maneira simplista, sem estimular a discussão. Inclusive, a proposta do CAHISD é agir de forma apartidária e atender aos interesses dos acadêmicos de forma democrática, respeitando o Estado democrático de direito, bem como a legitimidade das instituições, sem se envolver exclusivamente com um determinado grupo político por interesses pessoais. O CAHISD garante aos Conselheiros a autonomia de suas opiniões políticas particulares.

TI. Historicamente, os estudantes das chamadas Ciências Humanas (História, Geografia, Filosofia e etc.) participaram ativamente de processos políticos ligados a Democracia, como aconteceu no período da Ditadura Militar. Como vocês vêem o estudante de história atualmente?

C&P. Em sua maioria despreocupados com qualquer problema sócio-econômico, independente de influenciar ou não suas vidas. Os próprios movimentos estudantis não tem comprometimento real com a política e com os interesses e problemas acadêmicos, praticando o famoso peleguismo, agem como instituições fantasmas (fazendo política de “pão e circo”, sem distribuir o pão), situação que só veio por mudar através da reativação do CAHISD, que foi reativado juntamente do o Centro Acadêmico de Geografia, que veio através de uma mobilização do Movimento Estudantil Autônomo do FCH, grupo formado por acadêmicos de História e Geografia em meio a situação precária do transporte público e a situação política de Dourados na gestão Ari Artuzi, realizando ações de protesto.

TI. Há uma distância muito grande entre as universidades públicas e a sociedade, o que dificulta a inserção dos jovens de baixa renda nestas instituições. Como este problema pode ser resolvido?

C&P. O investimento precário na Educação, histórico no Brasil, faz com que o jovem de baixa renda não tenha estímulos para estudar, somado aos problemas sociais que o país enfrenta, obriga muitos jovens a optar por trabalhar, invés de estudar, mantendo um círculo vicioso de largar os estudos cedo, trabalhando desde cedo, ganhando pouco, e mantendo sua família com baixas condições de sobrevivência.

TI. A universidade como instituição, produz muito conhecimento que serve, na maioria das vezes, àqueles que estão inseridos nela. Como vocês pensam que a universidade pode ultrapassar seus muros?

C&P. Através de políticas que visam a integração entre todas a camadas da sociedade, através da realização de eventos culturais, esportivos e sociais, bem como realizar palestras e divulgação a cerca do Ensino Superior e dos cursos oferecidos pelas universidades da região.

TI. Como vocês vêem a situação política de nosso país e, principalmente, a da cidade de Dourados/MS?

C&P. Não é novidade que a situação política nacional é vergonhosa, em relação ao cenário político internacional, principalmente no atual momento que vivenciamos as eleições presidenciais, tendo que optar pelo menos-pior ou votar nulo, pois não há candidato que agrade consistentemente. Já a cidade de Dourados, vive uma situação caótica, passando por uma crise política, onde quase todos os vereadores, o prefeito, o vice-prefeito e algumas empresas (inclusive que prestam serviços essenciais a população, como de transporte e saúde) foram indiciados em um esquema de propina em licitações, para garantir monopólio de empresas e desviar recursos públicos, estando alguns vereadores ainda presos (os demais apenas afastados, recebendo o salário normal de um vereador), bem como o prefeito e o vice-prefeito, ainda presos e aguardando cassação, em um processo que vem se arrastando pelo legislativo e pelo judiciário.

TI. Os estudantes de história, geralmente tem uma tendência marxista. Vocês não acham que existe na universidade muito discurso e pouca prática?

C&P. Muita teoria de visão crítica, e pouca prática. A prática predominante é a de reprodução de críticas, pré-definidas.

TI. A Universidade Federal da Grande Dourados/UFGD tem como professora Graciela Chamorro, uma das maiores pesquisadoras dos povos Guarani falantes de nosso país. Como vocês analisam a questão indígena em Mato Grosso do Sul?

C&P. A situação da questão indígena no Brasil ao todo é complicada, no Mato Grosso do Sul não foge a esta regra, a questão das demarcações, a questão social, necessita de diálogo entre todos setores da sociedade, inclusive a participação do setor universitário, que tem desenvolvido pesquisas e muitas contribuições para a questão, sendo a nossa professora Dra. Graciela Chamorro uma das mais importantes pesquisadoras neste sentido. Para o problema ser resolvido de forma correta é necessário a discussão democraticamente, os indígenas fazem parte da nossa sociedade, seus problemas também são os nossos.

*Entrevista realizada pelos autores do Blog (Anderson Queiroz e Leandro Possadagua) no dia 26 de outubro de 2010. Quero aproveitar o ensejo para – novamente! – agradecer os amigos Caio Santos e Pablo Sangalli pela generosidade de ter atendido com todo carinho e respeito ao convite de participar deste espaço. Como se diz na periferia de São Paulo: “Sem palavras!!”.

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